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A um bom tempo, com o desenvolvimento das ferramentas que a internet nos oferecia, começamos a usufruir dos famosos fóruns. A idéia é simples, um espaço onde cada um pode dizer o que pensa, e, dentro de um mesmo espaço, pudessem ser todas as opiniões serem mantidas e assim teríamos um assunto sendo desenvolvido e comentado por várias pessoas. O formato de texto escrito, em comparação à língua falada, oferecia a possibilidade de certo rebuscamento, de um cuidado maior com as palavras, bem como a própria questão do registro, que facilitava réplicas, tréplicas, enfim, a partir do que de fato havia se escrito. Isto constituiu um espaço extremamente produtivo no que diz respeito à troca de informações... Disto ninguém tem dúvida.
Mas e quando a troca de informações se transforma em mecanismo de auto-afirmação e reafirmação de suas próprias idéias?
O que acontece, é que o debate, o diálogo, a conversa, a troca de saberes deu lugar a uma arena de guerra, da qual ninguém quer sair perdendo. Tal qual antigamente, o mote do "entro em debates para aprender mais" ainda está em voga, mas isto não passa de um pseudo-motivo dos mais confortáveis, que, no final das contas só esconde o verdadeiro pelos quais muitos atualmente participam de discussões: dizer para todo mundo "EU penso isso e VOCÊ está errado".
O grande problema reside nas diferenças. Se pegarmos um grupo de 5 pessoas que vestem a mesma camisa, suas colocações e idéias irão trabalhar todas em conjunto em prol de um mesmo pensamento, compartilhado por todos. Mas quando colocamos idéias diferentes, eis o problema. E quando falamos de religião então, é melhor pegar sua armadura.
A questão é simples, e se resume a alguns pontos. Para não ficarem vomitando depois "ah, não generalize", vamos utilizar a expressão "certas pessoas".
* Certas pessoas entram em debates apenas para vomitarem ao resto do mundo sua opinião, e, não dificilmente, tudo não passa de uma batalha de egos para ver quem no final vai levar o troféu melhor argumentador do tópico.
* Certas pessoas não se dão ao trabalho de entenderem de fato o que o outro quis dizer COMO UM TODO, e tudo o que fazem é buscar desesperadamente fragmentos de uma frase ou duas, completamente deslocadas de seu contexto, simplesmente para, a partir destas, lançar novamente seus "argumentos" imbatíveis.
* Certas pessoas partem da seguinte lógica: debato para aprender. Quando é exatamente o contrário! Para que duas pessoas discutam sobre o mesmo livro, é preciso que, primeiro, ambas o tenham lido.
* Certas pessoas acreditam que podem discorrer sobre qualquer assunto sem nunca ter lido uma página sobre o tema, ou, por simplesmente terem dedicado 5 minutos de leitura a um verbete da Wikipedia.
* Certas pessoas não se colocam no lugar de quem as critica para buscarem em si mesmas suas possíveis contradições. O caminho é justamente o oposto: buscam os problemas nas palavras dos outros, quando na verdade, se há quem critique, motivos há, e sou EU quem devo buscar incessantemente as mazelas do meu discurso; e não ficar esperando que o próximo o faça.
* Certas pessoas não conseguem compreender que certos temas (a grande maioria por sinal) exigem uma carga de conhecimento que não são todos que têm.
* Certas pessoas não entendem que a própria ferramenta em si é limitada e que, reduzir determinadas questões a posts de 2000 caracteres ou algo do tipo é deixar de lado suas respectivas complexidades, gerando assim um debate raso, superficial, sem qualquer valor.
* Certas pessoas não entendem que as idéias não se encerram na fala de uma pessoa, e que esta é apenas a concretização de diversas leituras, de várias horas de estudo, de muitos momentos de reflexão, e que, para entender de fato esta fala, é preciso, imprescindivelmente, ou compartilhar destas leituras, ou realizá-las.
* Certas pessoas não entendem que não é com 2 ou 10 debates que se encerra um determinado assunto, e que não é com 2 ou 10 argumentos que as questões se tornam esgotadas. Criou-se uma certa "concretude de argumento", ou uma certa "solidez de determinadas verdades" que nada mais fazem senão estabelecer convicções altamente questionáveis, e mais do que isto, só fazem iludir seus respectivos proprietários com o mito do eu sei.
* Certas pessoas não entendem que reduzir um assunto de considerável complexidade a um papo de buteco é absolutamente o mesmo que NADA! Não vai passar de um show de achismos e 5 minutos de fama para cada um expressar o seu.
* Certas pessoas são incapazes de entender que para falar do outro é preciso antes de tudo ouvi-lo. Uma verdadeira réplica depende essencialmente das palavras alheias, e não é esta, como muitos pensam, uma nova possibilidade de vomitar aquilo que pensamos e repetir o que já dissemos.
* Certas pessoas são incapazes de entender que não se desvincula o que é dito e quem o fala. Se eu estou a conversar com um biólogo, não vou esperar, em tese, que ele fale tão bem de literatura quanto de biologia, nem que o poeta me ensine a resolver uma derivada.
Em suma: mito do eu sei, e auto-afirmação. Enganam-se achando que sabem alguma coisa, e fingem para si mesmo, sobre uma fantasia de argumentador/debatedor portador dos mais diversos argumentos super destrutivos, capazes de desconstruir os mais complexos sistemas de idéias com apenas alguns posts. E não precisa nem dizer o quanto este self-deceit é prejudicial para o Satanista, não é?
Talvez alguns achem desnecessárias estas palavras, e como até já disse, óbvias. Mas trata-se de uma postura que está fixada de uma forma tão vasta entre aquelas pessoas que, a princípio, deveriam ser grandes críticos e que com elas teríamos muito a aprender, que não consigo ver estas minhas palavras como inúteis. É preciso compreender tudo isto que falei como uma tendência que se espalha cada vez mais, e, bem ou mal, o vômito alheio acaba sempre por respingar em nós. E quando estamos falando de Satanismo em si, é justamente através destes "debates" e destas certas pessoas que as mais diversas inverdades são disseminadas, e bem, como sabem, não sou do tipo faz vista grossa para isto.
Não vou dizer que não é uma experiência válida, muito pelo contrário. Se não tivesse visto o que já vi, com certeza não estaria escrevendo isto agora, ou talvez, justamente o contrário, repetindo os mesmos clichês de sempre: "oh, é através do debate que chegamos à verdade", "oh, é através do debate que temos acessos a idéias diferentes das nossas e isto é ótimo", "oh, é através do debate que praticamos nossa argumentação e nossa organização de idéias", "oh, é através do debate que aprendemos com o outro", bla bla bla. E ora, eu não discordo disto! Debates são luxo e lixo ao mesmo tempo. As coisas não são absolutas; não é por termos qualidades que não teremos defeitos. E é justamente pra isto que estou aqui, reclamar, apontar, acusar, se opor. Pois fazer sorriso amarelo e bater palma pro imbecil é sempre mais fácil. O caminho não é este.
O que fazer então? Ouvir o próximo, buscar incoerências em si mesmo, tentar compreender quem o critica, ultrapassar os limites do debate e dedicar-se a um verdadeiro estudo das questões que lhe despertem interesse, não se satisfazer com atraentes verdades e convicções que aparentam dar conta de tudo, permitir-se aprender coisas novas, etc etc etc. Infelizmente, não é qualquer pessoa que faz valer a pena o tempo com que perdemos com ela. Assim sendo, feche a janela deste fórum e vá ler um livro, ter uma aula, conversar com seu professor, assistir a uma palestra... O risco é bem menor... Ao menos a priori.
E novamente me pego pensando sobre o tema...
Auto-afirmação e auto-ilusão costumam trocar carícias. Uma acaba por engravidar a outra, e vice-versa. Por conta de acharmos ser o que não somos, também acabamos por querer mostrá-lo aos outros. E vice-versa...! Mas o que realmente me intriga é a origem destes tipos de postura...
A resposta mais direta para mim é: falta de segurança e/ou conhecimento de si próprio. A pessoa que não se sente segura com seu modo de ser, pensar, se vestir, enfim, acaba por depender de uma imagem, um personagem dotado de mínima verossimilhança, para então poder ser bem visto. Assim como a pessoa que não consegue compreender a si mesma, acaba por reduzir a questão que é si mesma a uma resposta, também imagética, também forjada. Mas em ambos os casos os motivos geralmente esbarram na questão da aceitação externa. Algo como aquele velho papo de que as mulheres não se vestem para se sentirem bem elas, mas sim para causar inveja às outras.
Mas e quando esta "aceitação externa" simplesmente não existe? Eu explico...
Eu vejo conversas. E nestas conversas, cada fala é iniciada por um eu/me/pra mim/meu ou derivados. Reparem só... Comecem a prestar atenção no que se diz ao redor. É fácil de perceber. Primeiro um diz "hoje eu estou assim", em seguida o outro diz "ah, já eu ontem estava assado". É incrível a ocorrência disto. É cada um querendo falar de si, e num geral, a escolha das palavras que introduzem cada uma das falas sempre tem um "eu", ou palavras de mesma semântica.
Se formos pensar em termos virtuais então, nem se fale. Reparem só, todo e qualquer campo em branco é uma possibilidade de auto-afirmação. Seja álbuns de orkut com os seus momentos, os seus amigos, a sua roupa, o seu estilo, o quão você é descolado; seja no subnick do msn onde você diz o que você sente, a briga que teve com o namorado, comentários da festa que você foi, desejos para os seu próximos momentos; ou então o ápice do o que você você está fazendo agora, com o nosso querido Twitter. Em suma, não precisa ir muito longe, de Facebook a blog, todo e qualquer recanto da Web 2.0, na qual haja uma "rede de relacionamento", ou qualquer tipo de interação social, lá está, nossa querida colega, a auto-afirmação. Onde puder haver uma fala, isto é, o sujeito valendo-se de linguagem para expressar o seu pensar, lá estará ela.
E então eu pergunto, se cada um de nós quer falar de si mesmo, quem então restará para nos ouvir? Se cada um quer falar de sua vida, quem será aquele um outro que o ouvirá? Se em um grupo de 10 pessoas, as 10 falam de si mesmo, quem as irá ouvir? Pois é, fala-se muito, ouve-se pouco. Isto quando se ouve.
E onde quero chegar com isto? Simples... Se não há quem nos ouça, por que falamos?!?!?!
Será que chegamos a um ponto tal de egolatria que estamos nos auto-afirmando simplesmente para nos auto-afirmar? Pois ora, de que adianta expormos nossas fotos, nossos pensamentos, nossas "idéias", nosso jeito, nosso isso, nosso aquilo, se todos aqueles que nos cercam fazem exatamente o mesmo?! Estaríamos nós em tempos modernosos tais que o culto ao eu chegou ao ponto de se tornar tão mecânico? Tenho medo do futuro. O homem vai aos poucos se tornando não mais o que de fato ele é, mas sim uma imagem, um ser virtual, não mais meta, mas extra-físico. E sabe quem cria esta imagem? Tudo, menos o indivíduo. Ou melhor, alguns poucos destes...
Pois todo o modus operandi de nossa realidade concreta, palpável, nada mais é senão determinada por aqueles que estão no poder. E eu não me refiro, a políticos, pop-stars, ou donos de megacorporações. Refiro-me àqueles que têm o poder de gerar informação, de reproduzir tendências, moda, atitudes, pensamentos, estilos. Nossa sociedade informacional molda-se a partir de si mesma, tendo como centro uma elite atuante que determina como você fala, o que você come, o que você veste, enfim, todo o seu "aspecto exterior". E onde entra o que de fato você é? Não entra. Pois o "eu sou X" já foi vendido. Você já tem uma lista de predicativos determinados.
Ou seja, é mais ou menos assim que funciona: você é uma máquina, que é programada para falar de si mesma, e enquanto você age mecanicamente, os cientistas que o programaram e continuam a programar, vivem.
Chegamos a um ponto tal, onde não somos o que somos, mas sim aquilo que dizemos ser. E dizemos ser aquilo que querem que nós sejamos. Ou digamos. Ou os dois. E bem, na falta do pecado da auto-afirmação, não nos deixa o Satanismo de lado. E quem se lembra da pimeira regra Satanista na terra?
1. Do not give opinions or advice unless you are asked.
(1. Não dê opiniões ou conselhos a menos que seja perguntado.)
Que o dogma nos salve da massificação. Amém...
Em primeiro lugar, a reação a isto não é justificada. Um bom advogado consegue facilmente convencer que se trataram de atitudes criminosas. Constrangimento ilegal, ameaça, difamação, enfim, está tudo lá no capítulo 5 do Código Penal. Portanto, não se tratam de conseqüências justas.
Mas bem, entra agora a parte que mais nos interessa; a ponte com o Satanismo.
Em um mundo de imbecis que não são capazes de respeitar a liberdade de pensamento alheio, a questão estética é algo um tanto quanto delicado de se lidar. Particularmente sou totalmente a favor do escárnio, felizmente nunca fui o alvo da piadinha alheia, pelo contrário, tornei-me mestre em falar mal dos outros e apontar seus defeitos mais aparentes. Mas definitivamente nada que se compare a isto. Para justificar meus atos, parto de um conceito que aplico em mim próprio. Quem deseja se fantasiar de palhaço, tem que ouvir sem reclamar as risadas alheias. E quem não o deseja, que não se vista como um. Aquele que de alguma forma, por mais que se trate de seu "estilo", sem qualquer egolatria vazia por assim dizer, se expõe de forma exagerada, não adianta, tem que aguentar piadinha e comentários desagradáveis. E eu serei o primeiro a fazê-lo. Pelo simples fato de que na grande maioria dos casos, aquele que faz a piada tem motivos mais que justos para tal. É uma questão matemática, e da qual parte também aquilo que entendemos por preconceito. Exemplo bem besta: se das 10 pessoas vestidas de rosa que vimos em nossa vida, 9 são viados, o décimo primeiro vai ser considerado um. Pois do desconhecido esperamos a regra, não a exceção. Ninguém aposta no jogo que tem a menor possibilidade de sair. Ou seja, o escarniador parte, no geral, daquilo que para ele configurou-se como regra. Se será ou não, aí é com cada um.
Mas ora, quer dizer então que eu vou ter de me prejudicar, deixar de agir da forma que desejo por conta dos outros? Pois é, meu caro ou minha cara, bem vindo à sociedade. Estamos todos interligados, ora de forma direta, ora indireta. E querendo ou não todas as nossas ações, ou a ausência delas são influenciadas e/ou determinadas pelo nosso meio.
Com relação a tudo isto, nos mostra a experiência que não vale a pena causar este choque gratuito nas pessoas. Nunca se sabe de quem vamos depender, ou até onde nos afeta a visão que as pessoas têm de nós. Só mesmo alguém muito rico para chegar ao ponto de tacar o foda-se para tudo a ponto de ignorar o fato de que existem pessoas, ou até mesmo o Estado a seu redor. É o típico caso da playboizada que por ter grana acha que nada vai acontecer com ele se fizer merda. E é o que mais acontece. Agora, de resto, deixando de lado a imbecilidade e o dinheiro, precisamos sim construir nossa imagem, seja em que contexto for. Familiar, profissional, escolar, etc. Quando nos expomos não apenas nos mostramos, mas somos vistos, e quando abrimos nossa boca não apenas falamos, mas somos ouvidos. Parece óbvio, mas as pessoas se esquecem que não somos apenas sujeito, também nos tornamos objeto.
Vejo no próprio Satanismo o grande exemplo de como uma exposição mal planejada só tende a nos desfavorecer. Assim como nele vejo também que o ser humano, ainda que seja a grande divindade de carne, também a divindade do pensamento, da reflexão, do conhecimento, e que a estética é apenas uma fina casca de um conteúdo que deve ser valorizado e desenvolvido. Também podemos perceber que o culto à imagem, tendo sido deixado de lado a verdadeira preocupação de crescer e estar em constante melhoria e movimento, nada mais é senão auto-ilusão e egolatria vazia. Se somos os primeiros a serem apontados pelo resto das pessoas, assim como somos os primeiros a apontar para os pseudo-satanistas, malvadistas que vivem de aparências, e tantos outros tipos de imbecis, devemos também ser os primeiros a justamente evitar que nos tornernos os objetos de nossas críticas e escárnio.
Nosso aspecto exterior não somente deve ser compreendido como um elemento de egolatria satisfatória que nos conceda auto estima e nos faça termos todos os cuidados para a manutenção de nossa carne, sem a qual simplesmente não vivemos, ao contrário das historinhas de alma e outros planos metafísicos por aí; mas também devemos vê-lo como uma ferramenta, um utensílio indispensável para nossas ações a atitudes, que ou as potencializa, enquanto encaminhadoras para conseqüências satisfatórias, ou as mina, nos causando o contrário. Não foi à toa que LaVey segmenta a noção de magia, nos trazendo a chamada manipulativa. É exatamente disto que estou falando.
Dizem que o melhor lado a se escolher numa guerra é o de fora. Evitar conflitos para observá-los de longe em certos casos é a solução ideal. Portanto, por qual motivo optar por ataques superficiais, como no caso da estética, se as verdadeiras transgressões se dão com o pensamento e com as atitudes? O palhaço recebe palmas por suas palhaçadas assim como por suas maquilagens e roupas engraçadas. O verdadeiro Satanista elogios por suas ações e forma de pensar.
E nunca é demais repetir a célebre frase: discrição é a maior astúcia do diabo.
Em tempos modernosos, pós-modernos, atuais, ou simplesmente, em nossa era cyberpunk (fica sempre a dica), como todos já sabem, vive-se na era da informação. Ok, até aí sem novidades. Mas podemos mudar o substantivo tão cotidiano, e dizer "fala", ao invés deste. Sim, pois o que de fato é o informar? Pensar na própria palavra ajuda, e não precisa estar num curso de Letras para ir um pouco adiante...
Pensando nas "sub-partes" da palavra, teremos: "in" + "formar" + "ação". Ou seja, formar em, formar dentro. Trata-se do resultado da ação de se formar algo dentro. Isto significa dizer que aquele que informa algo a alguém constrói dentro deste alguma coisa. Mas é realmente isto que acontece hoje em dia? Aquilo que é informado de fato de algum modo chega a nos formar?
Somos diariamente bombardeados por notícias, moda, deveres, direitos, posturas, estética, etc, etc, etc. Mas tudo isto nos torna melhor? Isto de alguma forma, nos forma? É realmente tudo válido? Somos mais, por conhecermos mais?
Naturalmente, digo que não, e qualquer um com um mínimo de senso, nem que fosse puramente elitista, compreenderia que nem tudo vai lhe ser útil. E é justamente por isto que opto pela palavra "falar", ao invés de "informar".
Estamos em um tempo onde muito se fala. Até demais. E quando pensamos em "falar", não significa que estamos dizendo que alguém ouve. Ou ainda que ouça, que se crie algo de novo dentro do ouvinte. Mais ainda, se este algo novo que talvez fosse criado tenha alguma importância.
Tudo isto nos leva a reafirmar, o que já provavelmente se sabia: é preciso que filtremos toda esta massa de "conteúdo" que nos é cuspida e escarrada diariamente através dos meios de difusão informacional dos quais dispomos. Entretanto, é preciso pensar mais do que isto. Esta é a conclusão que leva em conta apenas o aspecto exterior do problema, quando se toma o indivíduo por centro.
Ora, se em nosso meio o "falar" é tão constante e massivo, querendo ou não acabamos por ser influenciados por tal postura. E, inevitavelmente, também desperta em nós, a vontade de falar. E como queremos falar...!
Fotos no Orkut, uma apresentação pouco modesta, roupas mais extravagantes, blogs, enfim, estamos o tempo todo falando. E tudo isto tem algo em comum: queremos sempre falar de nós mesmos. É o culto ao ego, tão exacerbado em nossos tempos.
E mais uma vez, o capitão Satan vem nos salvar da horda ególatra, que na busca sedenta por individualidade molda-se justamente mecânica e homogeneamente, tal qual desejam os que se mantém no poder por conta justamente da inércia das massas.
E como? Muito fácil. Se o Satanismo foi a primeira religião a olhar para o "eu", também soube mostrar a ele seus próprios perigos. Se ele nos trouxe a liberdade, também ensina àqueles que não se cegam por uma auto-deificação débil, que esta mesma liberdade é a mãe de todas as perdições. Como dizia sabiamente Sartre, o homem está condenado a ser livre. E o Satanismo, ainda que não tão embasado filosoficamente quanto este último, nos mostra o mesmo.
Pelo Satanismo podemos compreender o quão grande podemos ser, mas compreende-se também o quão pequenos nós somos. E que somente o verdadeiro sábio reconhece suas limitações, ao invés de gritar aos sete ventos o que não é, nem nunca será. A instituição do pecado da auto-ilusão não é à toa, e nem por menos foi uma das jogadas mais brilhantes de LaVey na formação de seu sistema religioso.
Pelo Satanismo aprendemos a olhar para o populacho que nos cerca e ver as tolices dos tolos, para não simplesmente comportar-se como crítico arrogante que vive de sensacionalismo ácido em programas de quinta. Observamos o próximo para justamente dele nos diferenciarmos. E para que assim não sejamos, tal como ele, impulsionados por uma vontade incessante de falar, mas que na verdade, só demonstra idéias vazias, discursos moldados, e argumentos reproduzidos.
Pelo Satanismo somos incentivados não a permanecer na mediocridade, mas a nos tornarmos o melhor no que fazemos. Não por um simples reconhecimento dos que nos cercam, mas por nossa própria evolução individual. Melhor dizendo, simplesmente, movimento. Os "louros da vitória", se é que virão, são apenas a conseqüência. O auto-reconhecimento verdadeiro é a maior das dádivas.
E assim, se de alguma forma posso dizer que o Satanismo nos ensina a prestar atenção ao que se fala, inevitavelmente vem a importância do ouvir. E não se trata apenas de um sentido do nosso corpo. Trata-se ouvir nossas palavras, nossos atos, nossos pensamentos, nosso eu. Se a misantropia Satanista nos ensina a nos calar diante do próximo, o auto-conhecimento nos leva a um diálogo para consigo próprio. E eis a dádiva do silêncio: ouvir a si mesmo. Deixar a fala de lado para que se possa se compreender melhor.
Mais do que simplesmente uma defesa contra os olhares discriminatórios e preconceituosos dos desconhecedores de nossas idéias, a discrição Satanista também nos leva, como de hábito dentro de nossa religião, a nós mesmos. Para que possamos controlar nossas línguas afetadas pela frenesi moderna das massas pelo falar de si, ou de coisas que em nada nos acrescentem.
Para se abrir a boca, pressupõe-se não somente um querer dizer, mas principalmente, ter o que dizer. E como também já dizia Sócrates, tudo o que sei é que nada sei. Também não poderia estar mais correto. Em um mundo de infinitudes existenciais e ideais, nosso conhecimento só pode ser comparado a um grão de areia, isto quando se chega a tal nível. Pensa o indivíduo moderno que tudo conhece, que tudo sente, e que em um, no sentido de ser único, pode se tornar. Errado. Ter o que de fato dizer, é muito mais difícil do que se pensa...
Portanto, cabe ao Satanista, consciente de que nossa única verdade e certeza é a nossa satisfação e a busca por ela, atentar para sua fala, para que possa conceder justamente ao silêncio, o valor que lhe cabe, ainda que todo o resto do mundo, em sua cegueira pseudo-ególatra, não o faça valer mais que alguns centavos...
E então perguntar-me-iam: mas ora, e a sua fala, e este blog? E, seguramente, lhe respondo: é apenas que para justamente se lembrem da ausência delas; para que desta falta surjam novas em cada um daqueles que se dispuseram a me ouvir.
Mas enfim, como não são apenas Satanistas esclarecidos que visitam este blog, eu gostaria de deixar algumas palavras com relação a um ponto muito simples mas pouco conhecido. O que ocorre é que, não raramente, pessoas me procuram virtualmente querendo saber como se tornar um Satanista, como fundar um templo, uma organização, participar de irmandades, etc. E como este blog pretende informar, não vou deixar os leigos de lado! Nunca fiz isto, e não farei agora.
Pois bem, primeiramente, o que fazer para se tornar um Satanista? É muito simples, ler, pensar, refletir e agir. Fácil fácil. Ler aquilo que é considerado literatura Satanista, pensar sobre tudo aquilo que está contido nos escritos, refletir se aquilo é ou não válido para si e por fim, assim válido sendo, agir de acordo com os preceitos Satanistas. Pronto. Declare-se oficialmente um.
O que é preciso compreender é que o Satanismo tendo sua postura individualista postula um tipo único de reconhecimento, que é o pessoal. Ou seja, você não precisa afirmar para ninguém se é ou não Satanista, senão para si mesmo. Você é o único a quem deve satisfações com relação a seus pensamentos e valores. Portanto, fica fácil compreender o quão ridículo é aquele que fica se auto-afirmando para os outros, gritando seus
Em seguida, como montar meu templo, ou afiliar-me a um grupo em minha cidade? Eu lhe digo, esqueça isto, meu caro. Tudo o que eu disse anteriormente vale a pena ser repetido aqui, com mais alguns complementos.
Satanismo não é congregacionista. Ou seja, não precisamos nos reunir em grupo, confraternizar com nossos "irmãos", nem realizar rituais coletivos. Cada qual pratica sua fé e crença em suas ações, ao longo do seus dias de vida, em suas decisões, em suas escolhas, e não numa terapia em grupo. Claro, quem desejar praticar sua fé com outras pessoas, no que diz respeito a um ritual, é livre para isto, se assim desejar, mas que fique claro, isto não é um pressuposto obrigatório a ser seguido.
Nossa religião tem por base a proposição de conduta e a construção de valores morais, o que significa dizer que é uma religião de ação. Temos conceitos que sugerem a maneira como vamos nos comportar e os valores que devemos ter em mente por trás de nossa atitude. E isto é bem forte no Satanismo. Não ficamos promovendo festas, rezas, reuniões, nem encontros para poder afirmamos-nos como membros.
Mas então você me pergunta, mas e a APS e a CoS? Ora, elas são instituições com o intuito não de aglomerar Satanistas e fazer-lhes uma certificado, mas sim com um fundamento organizacional no sentido de reunir pessoas que compartilham certos interesses e juntar forças em prol de ações que visem algum tipo de mudança para o Satanismo. Seja em termos de difusão de idéias, busca por respeito, união de esforços para atividades artísticas, enfim, tudo isto está bem longe de uma simples reuniãozinha de amigos. Assim como já disse aqui no blog, em um post e noutro, há um abismo entre uma associação que só serve para saciar o ego apodrecido de uns e outros e uma produção de qualidade pautada sobre o Satanismo.
Em suma, caro jovem leigo, sedento por um rótulo, um nome, um título, um grupo; compreendo suas necessidades mais que naturais de querer afirmar-se. Mas saia deste nível o quão antes, e aprenda a olhar antes de tudo para si mesmo. Você não vive sozinho, não mora numa ilha, portanto não há como dizer que você é livre para fazer o que bem entender, a despeito das opiniões alheias. Agora, não seja também o palhaço do circo. Torne-se reconhecido por suas qualidades e ações, e não por sua fantasia. Isto é Satanismo.
Mas antes de tecer aqui as minhas críticas, e de, como um imbecil, falar de pessoas, cabe dedicar algumas palavras àqueles que colocam sapatos grandes, maquiam-se de forma excessiva e trazem alegria e riso a muitos: adultos, crianças, e até mesmo pacientes terminais...
O palhaço é uma figura única. É o personagem do riso. É um dos gritos de socorro que a arte dá quando se sente abafada por dor, tristeza, mágoa. O palhaço não é aquele que simplesmente se veste de forma ridícula, mas sim aquele que brilha, que chama a atenção, que acende para si uma luz única, incomparável, com suas cores fortes e seus acessórios singulares. Ele é aquele que tem por intuito fazer rir, fazer divertir, proclamar a alegria e a felicidade. O palhaço ao promover um sorriso, abre um para si, e mantém afastada qualquer aflição pessoal. Sem falar no caráter único da zombaria, do exagero, da crítica. Claro, esta última de forma mais encoberta, mas não ausente.
Mas é aquilo... Dizem as más línguas que a arte imita a vida, e a vida imita a arte... Ou algo do tipo...
Eu vejo pessoas fantasiadas. Elas se vestem de forma, no mínimo excêntrica, e figuram por entre pixels, bytes, e alguma unidade de tempo/espaço. São roupas chamativas, algumas coloridas, outras com muito preto, com muito branco... Eu vejo pessoas que ficam no centro do palco, fazendo suas palhaçadas. Eles riem de sua própria estupidez e quanto mais batem palma mais felizes ficam e mais comportamento ridículo temos. E mais e mais palmas... Eu vejo pessoas que promovem o riso, que são motivo de escárnio... E mais e mais palmas...
Mas estas pessoas contam piadas que não têm graça. Elas não promovem a alegria ou a satisfação, nada mais fazem senão nos fazer sentir asco, nojo, aversão, e até mesmo uma gota de egolatria, das mais vagabundas, por saber o quão acima estamos delas. Seus egos inflam como suas bexigas/balões/bolas de ar... São palhaços paralíticos para uma platéia de surdos-mudos, que não pára de ovacioná-los.
Eles estão na televisão, na internet, na esquina de sua casa, na sua roda de amigos. Quando vemos, logo reconhecemos um. E nada mais é senão uma questão de escolha. Ou você perde seu tempo vendo seus shows até ir no banheiro e vomitar, ou simplesmente os ignora. Talvez ainda que o faça eles ainda surjam, gritando, saltando, com a velha brincadeira da flor que esguicha água, ou ainda com aquela de jogar uma torta de religião oculta na cara das pessoas. Esta também é muito boa... Se assim acontecer, não se preocupe. Estes palhaços sempre existirão. Infelizmente. Cabe a nós evitarmos, ou ao menos tentar...
E para encerrar o post, mais uma vez a minha saudação àqueles que se dedicam a manter o sorrir em plena saúde, quando por muitas vezes, estes que o possuem não a tem em melhores condições, ao contrário destes imbecis dos quais falei anteriormente. E para estes digo-lhes: sorriam! Riam de si mesmo até se asfixiarem! Quem sabe alguém se lembre de suas piadas...
Não... Não se lembrarão... De nenhuma.
Dedicado aos palhaços e palhaços deste país.
Ai ai... É complicado. Às vezes me bate um desânimo absurdo com relação aos nossos jovens de hoje em dia. Ou seja,as pessoas do amanhã...
É curioso ver até onde chega o culto à imagem, à futilidade, à expressão do vazio. É realmente uma pena que tantas pessoas hoje em dia prefiram vestir o pacote completo da mediocridade. E isto não é apenas uma questão de idade não... Logicamente, o que estou falando aqui não é nenhuma novidade e todo aquele papo da sociedade do espetáculo, do tempo líquido de nossa condição pós-moderna, do aqui e agora que nunca se findam, do prático, da difusão da informação em larga escala, enfim, tudo isto já foi comentado, e, felizmente,continua sendo.
Mas o que tudo isto tem a ver com "Satanismo"? Simples. Pensando a partir de nossa religião, tudo o que temos hoje em dia são postura completamente não Satanistas. O que vejo por aí nada mais é senão uma massa de pessoas inseguras (Conrado que o diga,rsrs) que encontram na auto-afirmação estética uma massa de concreto, de marca barata por sinal, para aos poucos ir formando a base de seu orgulho vazio. Ou seja, o indivíduo cultiva a mediocridade que na noite seguinte estará sendo o seu jantar. E o que é pior, eles repetem o prato.
E o que é (mais) pior ainda é que, é justamente esta condição que é associada ao Satanista, por parte daqueles outros, os ditos Tradicionais, ou qualquer crítico das palavras de LaVey que nunca tenha lido nem ao menos a Bíblia Satânica. Pior ainda é ver que, estes que criticam o Satanismo são justamente aqueles que mais praticam o que chamo de egolatria vazia. Sedentos por auto-afirmação entopem seus álbuns do Orkut com bandas de black metal, fotos de seus "altares" toscos, poses de malvados, maquilagem e roupas pretas... Enfim, um grande festival puramente estético, vazio. Sem falar nos já clichês de todo malvado. As 9 Declarações Satânicas, frases de Crowley, trechos da Bíblia Satânica... Vixi, é tanta coisa. Sem falar nos pentagramas feitos em Ascii, 666 aqui, Shemhamforash ali... É simplesmente ridículo.
É preciso então mais do que nunca, reafirmar os preceitos Satanistas. O egocentrismo e a egolatria Satanista não se dão pela mera satisfação da imagem. É justamente por amar, adorar, e cultuar a nós mesmos que não nos permitimos nos estagnar por conta de esteticismo barato. É o caminho do desenvolvimento que percorremos, ao invés de ficarmos isolados numa redoma de espelhos, deliciando-se, mediocremente, com a nossa inferioridade. A busca pela satisfação do eu a partir deste próprio é uma via de labor, cujos fins são definidos pelo próprio Satanista. Uns irão valorizar as experiências, outros o conhecimento, e por aí vi. Mas em todos os casos é preciso notar que ser Satanista não é satisfazer-se por si só, mas sim, construir ao longo de toda a vida, um indivíduo verdadeiramente forte, qualificado, capaz, para que o orgulho que tenhamos de nós mesmos tenha uma base fixa, sólida.
O verdadeiro Satanista não precisa de espelhos por todos os cantos, muito menos é um manequim, oco, estagnado numa vitrine, saciando-se com o público que o observa. Não precisamos nos afirmar para ninguém, senão para nós mesmos.Esta é a postura Satanista.
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Satanismo? Oh!
O que todo leigo deve saber







