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"Não subestime o desprezo absoluto das pessoas. Tornar-se um pária não é fácil. As pessoas acreditam que o diabo é Satan. Ignoram que o mundo é muito mais antigo que o cristianismo. Tudo para essas pessoas ignorantes é coisa do “diabo”. E julgam, recriminam e segregam. Ainda que isso seja um pecado diante de Deus. Porém, estranhamente é exatamente esse comportamento hipócrita e preconceituoso que a Igreja incentiva. É tudo tão absurdo. E afinal o que são os pecados? É uma maneira de controle do ser humano, de condená-lo, de inserir culpa pelos seus desejos naturais, de submetê-lo, de castrar seus pensamentos. É tudo tão ridículo."

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Satanismo, auto-ajuda e religião em tempos modernos

Escrito por Recanto do Opositor

Não é exagero dizer que o ateísmo na última década vem recebendo cada vez mais adeptos. Também não é novidade dizer quais são os motivos pelos quais muitas das pessoas vem questionando as idéias propostas pelas mais diversas religiões. E a despeito de questionamentos sobre doutrinas e crenças, como o eterno debate entre "deus existe vs deus não existe", que já se tornou completamente clichê, há um constante crescimento da postura "bem, não tenho religião e não vejo motivo para ter uma". Verdade é, ao menos no mundo ocidental, o homem vem abrindo mão de ter um direcionamento religioso.

Por outro lado, esta ausência também nos apresenta uma outra questão, levantada por muitos religiosos, e passa por alguns pontos que já coloquei aqui no blog. Como digo, religião pressupõe, dentre outras coisas, como defendo aqui, um conjunto de proposições de conduta. Isto é, há no nível do dogma, enquanto fundamento de uma doutrina, uma indução a agir de uma maneira x e não de outra. Isto concede ao sistema um direcionamento moral específico, prescrevendo valores, normas, valores morais, modos de comportamento. E o que muitos dizem é que, sendo a religião um dos possíveis grandes nortes morais do homem, sem ela, ele simplesmente não sabe o que fazer. Ou seja, há uma base que vem sendo deixada de lado, de modo que ajamos sem um referencial, o que, na visão de alguns, nos traz problemas.

É indiscutível que este referencial possui suas qualidades positivas. Quem não gosta de saber o que deve fazer numa situação reversa. Quem não gosta de ser confortado por um pensamento num momento de dor. A religião oferece dentre muitas outras coisas segurança, esperança, algo em que se possa apoiar. Não é à toa que imprimiu fortemente sua marca ao longo da história do ser humano.

Pensando nisto, o que dizer dos livros de auto-ajuda?

O "estilo" vem crescendo a cada dia e se tornou sinônimo para as livrarias de boas vendas. Mais do que fazer piadinhas e diminuir a qualidade de um texto assim rotulado (de fato, comparar um Fausto ou um Dom Quixote com um best-seller de Augusto Cury é se dar conta do abismo entre as obras); é preciso que pensemos por qual motivo este tipo de texto vem sendo tão amplamente lido. Bem, ao menos desperta o interesse ao ponto de ser comprado... O fato é, não seria exagero de minha parte dizer que leituras da Bíblia vêm sendo substituídas por leituras deste tipo? Reflexões e práticas religiosas não estariam dando lugar a livros como "como ser feliz em 10 passos" ou "a felicidade em cada um de nós"; enfim, coisas do tipo?

Não possuo dados que corroborem o que vou dizer, mas me parece plausível pensar que da mesma forma que um indivíduo recusa a religião, fará ele o mesmo quanto a estes livros de auto-ajuda. Curiosamente, esta é pode ser considerada até uma postura bem Satanista: "eu vou decidir o que é bom para mim, não quero livro nenhum me obrigando a fazer alguma coisa ou a deixar de fazer outra". Mas ora, é exatamente este mesmo pensamento que vai dizer exatamente o seguinte: "tal qual as outras religiões, o Satanismo me oferece algo que posso buscar em mim mesmo; não preciso de seus conselhos e propostas".

Ou ainda, por que não dizer que tudo o que é postado neste blog também não passa de capítulos de um grande livro de auto-ajuda?

Sim, pois aqui nada mais há senão propostas de comportamento e conduta, bem como podemos ver nos livros do tipo. Não se está aqui a produzir conhecimento científico acadêmico. Não partimos de qualquer diretriz metodológica, muito menos nos comprometemos a abordar qualquer tema ou corpus de análise sob qualquer perspectiva metodológica de qualquer disciplina específica do conhecimento humano. Também não há aqui qualquer obra literária que nos leve a reflexão de um tema ou outro.

Por que então perder tempo com todas estas leituras?

Reparemos que a resposta a esta pergunta, também é uma resposta para: por que estudar Satanismo? Pois ora, não é ele tão desnecessário quanto os bastiões da moral religiosos e os livros de auto-ajuda? Não sou eu capaz de partir de meus próprios pensamentos para determinar a base moral da minha vida?

São questionamento extremamente válidos, mas o próprio Satanismo nos dá-lhes respostas.

Em primeiro lugar, a própria religião, ao contrário de muitas outras, não precisa de você enquanto seu seguidor. Isto significa dizer que ela não depende de uma legião de fiéis para subsistir. Ou seja, se você não quer para si o que o Satanismo tem para oferecer, sem problemas, seja feliz assim.

Em segundo lugar, a religião não entende que as suas propostas sejam as únicas válidas, pelo contrário, permite que cada indivíduo determine suas próprias verdades, respeitando sua liberdade de pensamento inclusive para também, por sua vez, não aceitar a religião.

Por fim, entra o grande elemento diferencial do Satanismo.

O grande problema das grandes religiões é que elas simplesmente não souberam reconhecer seus limites, como se elas próprias representassem todos os possíveis olhares e pensamentos que o indivíduo pode ter. Com isto quero dizer que muitas delas, principalmente as cristãs, não se limitaram às suas condutas, sem que servissem de explicação para todo e qualquer questionamento humano. Deixar de lado filosofia, ciência e arte para viver apenas uma vida de religião é a maior limitação de pensamento que pode haver. Há uma realidade de complexidade infinita diante das retinas de cada um, e não é com óculos bíblicos que iremos apreendê-la. E entender o mundo ao nosso redor significa precisar a maneira como vivemos. E eis o que o Satanismo pode oferecer.

A religião em si não deixa de lado todo o conhecimento que pode ser desenvolvido nos cérebro e mente de cada indivíduo, pelo contrário, a busca pela vida e por seus prazeres, não simplesmente carnais, também é uma busca por aprimoramento de pensamento, por pluralidade de experiências. O grande caminho é reconhecer que o Satanismo não será nunca um fim, mas sempre um meio; nunca uma navegação de grande porte, mas sim os ventos que a sopram.

E é neste auto-reconhecimento de limitação que se configura a religião como um forte aliado na vida de cada indivíduo. Pois como já disse em outro momento, o homem é um ser social, e todo e qualquer indivíduo vale-se de um conjunto interno de valores e conceitos morais que determinam suas ações. Estas ações são construídas através de sua vida em sociedade, e pode ser mais ou menos especificada. Por exemplo, um cara que nasceu em um ambiente familiar cristão recebe valores cristãos e tende a fazer deles parte de seu conjunto de regras internas de comportamento e ação, reafirmando a unidade religiosa cristã como um guia. Isto é, ele reconhece que há um parâmetro muito bem definido a ser seguido. Já um ateu, por exemplo, pode não precisar exatamente quais foram as influências para o seu conjunto de valores, mas ora, todos eles têm uma origem.

E então retomo o que disse anteriormente. Reconhecendo que a religião Satanista não determina em última instância a forma como encaramos a realidade, de modo a limitar nossas possibilidades de vida, por qual motivo não aceitar suas proposições de condutas, tendo com elas uma vez já concordado, após um processo de reflexão e questionamento, que, por sua vez, mantém-se constante? Repito sempre o mesmo questionamento: devemos deixar de dizer "eu aceito o que o Satanismo tem a me oferecer" simplesmente para que não sejamos alvos de comentários, tipicamente ateus, do tipo "ah, nossa, você tem um religião?!, puxa vida, como você é bitolado e limitado?"!? Se me dou ao trabalho de colocar, por exemplo, o nome de um livro e um autor nas referências bibliográficas de um trabalho acadêmico, reconhecendo assim sua importância na elaboração deste, por qual motivo então deixar de reconhecer num texto de caráter religioso sua influência na maneira como estabeleço meus valores morais?

Como sempre digo, o problema não está na religião em si, mas em quem a pratica. É claro que se ela permite usos equivocados, trata-se também de um problema estrutural. Pensemos no caso do cristianismo. Como não entender que seu respeito pelos homossexuais, por exemplo, não passe de um sorriso amarelo uma vez que segundo seu livro sagrado trata-se de pecadores que merecem punição? O mesmo não parece ocorrer com o Satanismo. Ele não estabelece limites, verdades absolutas, condutas últimas inquestionáveis, nem ainda limita nossos horizontes à religião em si.

Os muitos significados de Satan - o Acusador

Escrito por Recanto do Opositor

E sempre bom pensarmos que as palavras trazem sempre toda uma vasta gama de tradições, história, culturas, enfim. Cada palavra é um mundo a ser descoberto. Naturalmente que nem todos precisam ser filólogos de carteirinha, mas é sempre por pensar nas origens de um termo, de uma palavra, ou até expressão. Não se trata de uma busca vazia, de alguma forma, podem as motivações originais destes deixar seus resquícios até seus respectivos usos atuais, o que ajuda a compreendê-los.

E se estamos falando de todo um sistema religioso, seus símbolos abrigam em si mais do que uma mera origem etimológica, mas toda uma carga simbológica e dogmática. Dogmática não no sentido de absoluto, de inquestionável, mas simplesmente de nos remeter a pontos fundamentais da doutrina da qual estes símbolos fazem parte. E o que poderia no Satanismo ser mais importante que a figura de Satan?

Suas significações são múltiplas, e hoje pretendo pensar um pouco sobre um dos predicativos/títulos/atributos deste arquétipo máximo de nossa religião: o papel de acusador. A despeito de discussões sobre tradução, modificação, interpretação, etc.; quem se propor a estudar a história bíblica, verificará que em um dado momento, que satan aparece na figura de algo como um promotor dentro de um contexto jurídico nos tempos antigos. Pensando na própria correspondência da palavra Satan também encontraremos, dentre opositor, e adversário também acusador.

Mas o que significa isto e qual a importância dentro do Satanismo e sua proposição de conduta?

Para tal, devemos nos remeter a LaVey e suas palavras. Como já disse em outros momentos , no que diz respeito quanto ao tom da BS, há circunstâncias históricas extremamente relevantes a serem levadas em conta. Quando tudo começou, havia uma clara preocupação de LaVey em desconstruir uma série de conceitos cristãos fortemente presentes na sociedade americana, e ocidental como um todo. Tratava-se de uma postura de ataque, de levar às mãos martelos para destruir pedras de tradição e correntes de moralidade. Tudo tende ao equilíbrio: se forte resistência de um lado, muita força do outro.

É neste contexto que é exercido o papel do acusador. Acusar significa apontar o dedo. Acusar significa reconhecer os problemas do outro; e mais do que isto, refletir que isto também se aplica a si. Não se trata nunca de uma crítica gratuita no sentido de diminuir o próximo, mas perceber que aquela atitude se repetida pode me levar a conseqüências indesejáveis. LaVey olhou para aqueles rapazes no parque que olhavam as belas moças e iam no domingo com a família rezar na Igreja e os acusou. Trouxe à tona o lado da moeda que ninguém queria ver.

Eis a postura do verdadeiro acusador.

Sua importância é fundamental, e precisa ser trabalhada em cada momento de nossa vida. Pois acusar é não manter-se calado. É ser detentor de espírito crítico, é não ter medo de mostrar o que alguns não querem ver. Naturalmente, por muitos seremos vistos como inimigos. A tradição não quer quem a questione e ninguém quer movimento. Ser acusador significa estar sempre de olhos atentos para reclamar, falar mal, vomitar de volta ao mundo a escória que ele diariamente nos concede.

Uma postura de questionamento é fundamental, mas mais do que isto, é preciso deixar de lado o sorriso amarelo do conformismo. Talvez fingir ter um por conta de intenções futuras, mas nunca, em momento algum, deixar de acusar. Acuse o próximo, o conhecido, o desconhecido, e, acima de tudo, sejamos capazes de acusarmos a nós mesmos. O arquétipo de Satan manifesta-se em ações não somente de manutenção de valores e de uma segurança feliz que tende a nos deixar inerte; Satan subverte a si mesmo, em prol de si mesmo.

Não se esqueça entretanto de ser discreto quando preciso. O mundo não precisa dos seus gritos de revolta. Sorria para o verme que o cumprimenta, aperte sua mão. Mas não se esqueça quem ele é; e muito menos queira ser como tal. Enquanto promotor no tribunal da vida, ignore quem são os inocentes; não busque aquilo que você deseja ser. Talvez de fato nunca o saberá. Mas saiba do contrário.

Analisando "O terço Satânico": é pra rir?

Escrito por Recanto do Opositor

A internet realmente é um poço de maravilhas. Falando de satanismo, conhecimentos ocultos, pactos, e todas as outra tags que atraem adolescentes sedentos por "sabedorias das trevas" há dezenas de sites por aí, e cada um mais ridículo que o outro. Naturalmente, não vou ficar falando aqui do "panorama informacional da internet" com relação ao Satanismo. Mas hoje eu vou trazer para vocês um exemplo claríssimo de como que algumas palavras não só trazem à tona questões de como o Satanismo é compreendido e transmitido, como também reafirma as condições dessa recepção.

Desta vez, não vou simplesmente falar o que acho e lançar meus comentários ao vento. Serei específico. Como "objeto de análise", se podemos assim dizer, escolhi um texto que já havia lido a certo tempo, mas me faltava disposição para falar sobre ele. Eis que ela veio, e agora estamos aqui... O texto se chama "O terço Satânico", e está disponível onde, onde, onde, advinhem?! No Morte Súbita, claro.

Mas ora, por que "claro"?

Pelo simples fato de o Morte Súbita não passar de uma mistureba de muito mal gosto de uma série de coisas que seus mantedores julgam ser "proibidas", "secretas", "ocultas", enfim. De vampirismo a terço Satânico, passando por vampiros, Crowley e um bizarro "ritual da troca de signo" (sim, há um), o site apresenta uma salada de difícil digestão. Malvadismo? Imagina. Há uma frase que diz assim: quem ama a todos, não gosta de ninguém. Dos muitos temas que há por lá, naturalmente o que mais me interessa é o que eles oferecem sob o rótulo de Satanismo. E é exatamente aí que entra minha crítica. Não vou negar que existe muita coisa a se considerar por lá com relação ao tema, inclusive textos que estão na pasta virtual aqui do blog. Entretanto, de que adianta dar 10 e tomar 50? Da mesma forma que há um material fidedigno com relação à religião Satanista, existe uma série de outros completamente desprezíveis.

Ah sim, sem falar nos diversos souvernirs, nas páginas visualmente poluídas com propagandas, nos livros à venda, enfim. Não vou entrar em méritos sobre como se ganhar dinheiro, mas ora, escrever sobre Satanismo nunca me foi um meio para tal, e sinceramente, não vejo lá grandes valor em se aproveitar da curiosidade e da inocência alheia... Questão pessoal à parte, se tem quem vende é por ter quem compre, então, que assim seja...

Mas chega de críticas vazias, vamos atuar de forma mais concreta. Voltando à nossa escolha, iremos agora analisar alguns trechos que achei importante do texto em questão, e aos poucos entender como que alguns simples parágrafos determinam a maneira como o Satanismo é visto, indo muito vezes além da mera opinião do autor.

Em suma, o texto nos "ensina" a fazer um terço Satânico (dumal!), a como utilizá-lo, e o mais legal, ainda rola umas palavras de advertência no final. Vamos por partes...

"Ao contrário do que desavisados sem cultura podem acreditar, o objetivo desta operação não é produzir qualquer forma infantil de paródia do conhecido terço católico. Ao contrário, trata-se de uma útil ferramenta mágica/psicológica que está a disposição dos adeptos muitos séculos antes da igreja romana reinvidicar tal instrumento como seu. A meta portanto é resgatar uma ferramenta antiga e devolvê-la aos seus usuários originais: os praticantes das artes ocultas."

Desavisados sem cultura? Ora, não são exatamente estes que vieram ao site buscando fazer um terço Satânico... ? A despeito disto, temos já no início uma explicação, até válida, sobre o fato de não se tratar de uma inversão cristã. Para tal, como de costume, surge o bom e velho argumento do "o meu veio antes". Naturalmente, este texto, assim como muitos outros, em momento algum se vale de referências bibliográficas para comprovar seus argumentos temporais/cronológicos. Algo do tipo "eu digo que o meu veio primeiro, e ponto final". Mas ora, que certeza é esta? Se livros de renomados autores são colocados em cheque, o que dirá um texto de internet! Que adeptos são esses? Quem me garante que eles usavam um terço? Ou ainda, se utilizavam tal instrumento, isto retira o valor de uso deste a partir da Igreja? Era assim ele chamado, "terço"? Enfim, muitas perguntas sem respostas, e, pra fechar o parágrafo inicial, as boas e velhas "artes ocultas". O ocultismo é assim, a gente não precisa provar nada, basta dizermos que a muito tempo era de forma X, e pronto, temos uma verdade. Verdade esta "oculta", que tem a sua "graça" justamente por conta deste quê de "mistério"... Ou, em outras palavras, cada um diz o que quer.

"O corda de contas veio do oriente e ainda hoje é comum entre os hindus. Todavia sua utilidade mágica se perdeu para dar lugar a um ritual vazio. Tradicionalmente era uma forma de disciplina e controle mental com resultados muito poderosos para aqueles que a souberem usar. Seu uso é descrito em diversos tratados ocultistas sendo este artigo uma adequação do mesmo à egrégora e a estética satânica."

Novamente, carência de fontes. Verdade ou não? Não importa. É preciso deixar de lado este hábito do "eu disse, é verdade", quando estamos falando de origens tempo-espaciais precisas de algo. Bem como a própria validade das fontes deve sempre ser questionada. Que tratados ocultistas são estes? E como verificar sua validade? Simplesmente, não dá. Verdades vomitadas, nada mais que isto. Ah sim, e ainda tem este maldito "egrégora", que parece ser moda entre algumas pessoas que gostam de escrever. Não sei o motivo para usarem um termo como este. Querer falar bonito, talvez. Só pode ser, pois trata-se de um termo de uso em contextos espirituais demais para o Satanismo. Só pra constar, esta palavra não é utilizada SEQUER UMA VEZ na BS.

"Na verdade qualquer rosário tradicional serviria muito bem ao nosso propósito. O terço usado pelos budistas, destes que não trazem qualquer decoração poderia ser usado, mas não teria o mesmo apelo emocional que um terço satânico poderia ter. Desta forma, por motivos artísticos ( e a arte não esqueçam é uma forma de magia) e pelo impacto psicológico recomendo substitua a cruz na ponta do Terço por algum outro objeto que esteja mais aquém de nosso propósito. Um chaveiro com uma foto sua, uma réplica de crânio humano, um pentagrama invertido ou qualquer coisa do tipo. Mas para sermos práticos a forma mais simples de construir seu terço satânico é simplesmente inverter a cruz de um terço católico."

Esta parte é legal. O autor no início do texto faz questão de dizer que isto não é uma paródia do terço cristão, que somente pessoas sem cultura não sabem que o terço tem origens pré-Igreja e bla bla bla, para agora dizer que basta usar uma cruz INVERTIDA?!?! Se isto não é paródia, no sentido de ser uma imitação cômica, é uma expressão de plena dependência do símbolo cristão! Cruz invertida não tem ABSOLUTAMENTE nada de Satanismo. Cruz invertida é cristianismo inverso, é o lado negativo da religião, é a sua ridicularização, sua desvalorização; nada disto é Satanismo. Satanismo e anti cristianismo, como já dito, estão bem longe um do outro. Ou deveriam estar.

"Será necessário também consagrar o terço, no meu caso utilizei um simples ritual do pentagrama invertido, mas rituais próprios ou personalizados podem ser feitos de acordo com a experiência e vontade de cada um. O objetivo aqui não é transferir alguma espécie de força mística para o artefato, mas simplesmente deixar claro no seu inconsciente que o Terço Satânico é um objeto mágico, ou seja auxiliador na realização de sua vontade. Reserve um lugar especial para ele em seu altar pessoal."

Um simples "ritual do pentagrama invertido". Quanto a isto, sem comentários. A frase é risível por si só. Foi-se o tempo em que dizer que fez um ritual do pentagrama invertido significa chocar, parecer dumal, ou coisa do tipo. Hoje, não passa de uma situação ridícula, clichê, digna de escárnio, típica de cenas de filmes de quinta. E só um comentário... Deixar claro pro inconsciente que o terço satânico é um objeto mágico? Deixar CLARO pro INCONSCIENTE?!?!? Eu não possuo qualquer considerável bagagem teórica de psicologia, mas esta frase me parece no mínimo incoerente...

"Ao contemplar a cruz um cristão alimenta o desejo masoquista secreto de ser crucificado com Jesus realizando ele também a vontade de deus em detrimento da sua. Ao inverter a cruz o satanista se recusa a sofrer pela vontade de outros."

"Desejo masoquista secreto de ser crucificado"... A frase parte de coisas que até fazem bastante sentido. A Bíblia cristã nos conta a história de Cristo, certo? Óbvio. Mais do que contar a história, o que há de fundamental no personagem mais conhecido de todo o mundo, é que toda a sua vida, a maneira como tratava as outras pessoas e a forma como via o mundo; enfim, tudo aquilo que Cristo é constitui-se como o exemplo-mor dentro do pensamento cristão. Jesus é o ideal supremo de como se deve viver, e os cristãos, ao menos em tese, deveriam agir da mesma forma elevada. Agora, reduzir este pensamento a um "oh, quero secretamente ser crucificado", aí já é demais. É redução e desvalorização das religiões cristã à toa! São coisas como esta que só inflamam o anti-cristianismo na mente de adolescentes revoltados, quando não de adultos.

"Peter Carroll, arauto da magia caótica, disse certa vez que “Todo Deus ignorado, convertesse em um demônio.” O famoso caoista estava se referindo em parte ao poder da subconsciência, que de uma forma ou de outra explode em realidade toda a idéia reprimida. A vantagem do terço Satânico é ajudar o magista satânico a lidar com este aspecto para que ele não só cesse de nos prejudicar, mas pelo contrário, ajude nos a realizar nossos próprios desejos pessoais."

Magia caótica?! Caoísta?! Rótulos, rótulos, rótulos... Nem sei o que dizer...!

"Qualquer ato mágico naquilo que conhecemos como mundo material, por sua própria natureza física precisa de tempo a de espaço para acontecer. Quando tiramos o tempo e o espaço do subconsciente, a polaridade oposta cessa de exercer a sua influência em nós, a podemos então realizar nossos desejos através desse subconsciente. É nesta morte súbita da mente (conhecido pelos caoistas como gnosis e pelos yoguis como Não-Mente) que reside a chave para o uso prático da auto sugestão. "

Entenderam?! Primeiro a gente tira o tempo, depois o "espaço do subconsciente", e então a "polaridade oposta" deixar de nos influenciar, para que possamos realizar desejos através do subconsciente, que, ora, foi deixado de lado!?!!?!? E tudo isto é a "morte súbita da mente"?!!??! Freud ficaria feliz de ler isto. Queimaria suas dezenas de livros imediatamente.

"Quando acordar de madrugada, pegue o seu Terço Satânico e repita a fórmula seguinte em meia voz, bem baixinho ou só em pensamento, como achar melhor, ou como lhe for mais adequado no momento. A cada frase pule para a conta ou nó seguinte, até completar o circulo que fecha o terço."

Ri-dí-cu-lo! Eu não sei se alguém já teve a oportunidade de ir a uma reza de terço, a dos católicos. Quem já teve vai ver que trata-se exatamente da mesmíssima coisa. É óbvio, se é um terço, seu uso também seria tal qual o cristão. Mas, meu deus, é completamente risível. Um cara pega um terço na madrugada (ui) e fica rezando cânticos dumal, como os que vem a seguir no texto, destaque para o tão original "IN NOMINE MAGNI DEI NOSTRI SATANAS LUCIFERI EXCELSI!"...! (Quem não se lembra do "In nomine Domini nostri"? Veio muito antes deste...) Quer inversão cristã mais clara que esta?! Vai dizer para um leigo que está lendo este texto (o do terço) que Satanismo não é cristianismo de cabeça pra baixo!!!

Bom, algumas coisas mais poderiam ser ditas, mas acho que já é o bastante. O autor fala de consciente como se nunca tivesse lido um livro de psicologia, achando que pode tratar de conceitos complexos desta forma; vale-se de algo tipicamente cristã e coloca-o numa roupagem Satanista, reafirmando o equívoco que é entender o Satanismo como dependente das doutrinas, rituais e pensamentos cristãos; utiliza-se dos mesmos clichês do tipo "hail Satan", de que o ritual vai trazer tudo o que você quer... E é com textos como esse que vão se reproduzindo malvadistas, e sendo instaurada uma visão completamente equivocada do Satanismo.

Que textos mais verei na internet? Páscoa satânica? Dia de finados satânicos (esse seria bem legal, hein?)? Natal satânico? Corpus-satani? Dia de ação de graças satânicas? A pomba negra satânica? Jesus Satan-version? ...!

Como sempre digo, e repito, nossos piores inimigos são aqueles que vestem a mesma camisa que a nossa.

Arte Satânica? - Parte II

Escrito por Recanto do Opositor

Continuação da Parte I...

Mas ora, quais então seriam estes elementos?

Anjos, demônios, personagens de mitologias, o próprio diabo cristão em si, baphomet, cruzes invertidas, predominância de cores negras, imagens que nos remetam a dor, à escuridão, cenários soturnos, ambiente noturno, melancolia, sangue, destruição, sombras; enfim, há uma lista enorme de tudo aquilo que poderíamos chamar de elementos constituintes de uma típica produção artística sendo rotulada como Satânica. Retoma-se então a pergunta: são estes exclusivos do Satanismo? É claro que não podemos fazer um catálogo de todas as imagens, figuras e símbolos e suas respectivas histórias, entretanto, neste pequeno conjunto de elementos que citei, fica claro que não há entre eles qualquer "originalidade satânica", ou seja, não se trata de produções essencialmente Satanistas. O que podemos dizer é que, ainda que não agrade a alguns, não há uma fonte de elementos considerada de forma primeira como Satanista, isto é, mantendo uma relação direta com o Satanismo enquanto religião. Desta forma, o que deve ser entendido é que o Satanismo se vale de elementos de narrativas, de determinadas escolas artísticas, de movimentos literários, e até os modifica à sua forma, de fato; mas se trata de uma apropriação, e não de uma forma nova, primeira, de "gerar elementos" "originalmente satanistas".

Entramos então no segundo ponto. Estes elementos são uma expressão do Satanismo? Isto é, apresentam eles elementos que fazem parte do sistema religioso de idéias que é o Satanismo? Tratam estas ditas obras de arte Satânica de valores, noções, princípios e dogmas do Satanismo? Ou será que estamos apenas a falar aqui de uma mera apropriação estética, superficial, exterior? É claro, e isto não pode ser deixado de lado, que a própria apropriação de elementos x, y e z ao invés de elementos a, b, c de alguma forma já expressam uma certa "identidade" Satanista. Mas ora, ficamos apenas no nível do visível, no nível do primeiro impacto, no nível da forma.

Buscando então produções que, mais do que utilizarem uma aparência não "originalmente" Satanista, também apresente um caráter de conteúdo de valores e idéias Satanistas, é que nos deparamos com uma situação, que, ao menos a meu ver, é muito clara: não há um quantitativo considerável de produções artísticas essencialmente Satanistas. Há sim a fortíssima rotulação, mas não a produção propriamente dita. Todos buscam desesperadamente taxar isto ou aquilo de Satânico, mas ninguém possui capacidade e/ou vontade de fazer um trabalho sério que vá além do visual, do externo, da forma; que traga também reflexões sobre o Satanismo enquanto um sistema de idéias! E ora, isto é mais que natural: se nem ao menos praticantes suficientes temos, que dirá "artistas" para produzirem algo com base no tema. Somos obrigados a ficar no nível da retórica, da dissertação, da argumentação; isto quando o temos.

Assim sendo, é fundamental refletirmos sobre o que de fato é Satanista e o que querem que seja Satanista. E não somente isto, os próprios Satanistas só têm a ganhar se for incentivada a produção, a reflexão, as leituras. Podemos atribuir a esta questão das produções artísticas os mesmos problemas com relação ao próprio Satanismo em si, no que diz respeito a seu desenvolvimento, reconhecimento, conhecimento; enfim, como já disse por sinal em outros momentos.

Vamos rotular menos e produzir mais. Eis o caminho. Muitas vezes o rótulo apenas satisfaz as necessidades superficiais de uma atitude pautada pela auto-afirmação, e são justamente estas necessidades que, uma vez satisfeitas, (devido à vastíssima gama de "coisas Satânicas" das mais diversas formas, cores e tamanhos) é que irão fomentar preconceitos, contribuir com a limitação do pensamento, enfim, fazer com que o indivíduo se sinta cada vez mais conivente com sua superficialidade. E enquanto isto, ninguém fala sobre Satanismo, ninguém debate sobre Satanismo, ninguém produz obras que tomem por temas elementos da religião Satanista. Ora, onde está então a tal arte Satânica?

Arte Satânica? - Parte I

Escrito por Recanto do Opositor

Rótulos, rótulos e mais rótulos. Eis o problema de sempre. Todos querem um Satanismo... Todos querem que sua banda favorita seja uma banda Satânica... Todos querem que o poema que escreveram numa noite de chuva seja um poema Satânico... Todos querem que sua prática sincretista religiosa também seja Satânica... Blá blá blá. Quando será que vamos deixar de lado esta necessidade tola de qualificar tudo como "satânico", quando estas coisas assim rotuladas pouco ou quase nada nos tem a dizer de fato sobre Satanismo?

E o que pensar então quando ouvimos "arte satânica"?!

Muita, mas muita calma nessa hora. Como dito por aqui certa vez, certas coisas que são naturalmente complexas não devem ser reduzidas a verbetes de Wikipedia, frases de efeito, uma citação deslocada ou outra de algum escritor popstar, ou ainda frases de subnick de MSN. Principalmente quando estamos a lidar com algo que simplesmente não possui qualquer definição absoluta. Pelo contrário, tentar entender o que é arte e o que não é é uma questão que acompanha o homem desde os gregos, e não vai ser agora com um parágrafo ou outro que vamos tratar de esgotá-la. O caminho nunca foi dizer que arte é X ou Y e não será agora que irei fazer isto.

Até poderia aqui, neste momento, valer-me das palavras de muitos outros grandes pensadores que se lançaram na questão... Mas seria em vão... Páginas e mais páginas de citações, referências bibliográficas, etc. etc. etc. Mas ora, pra cada uma destas que colocasse aqui, haveriam mais outras 20 sendo esquecidas... Assim sendo, não se trata agora de esclarecer o que é o fazer artístico. Entretanto, ainda que ignoremos se há de fato uma "natureza artística" daquilo que se diga ser uma "obra de arte satânica", podemos perfeitamente, e desta vez, entrando em um campo mais seguro de certezas, questionar sobre esta suposta qualidade de ser satânica.

Se dissemos que algo é Satanista, é preciso que nos perguntemos: o que é Satanismo? Ora, esta a gente sabe (ou se deveria saber), Satanismo é um sistema de idéias de caráter religioso. Quem duvidar disto, basta ver aqui meus argumentos para considerar o Satanismo uma religião... Mas, a despeito desta questão entre ser o Satanismo ou não uma religião (o que também é uma mera questão de rótulos, como podemos ver aqui), o que importa é que ele constitui-se como um conjunto fechado de princípios e valores que o definem enquanto Satanismo, ou seja, que lhe dão a unidade que possui, no sentido de ser uma coisa, e não outra. Desta forma, para algo ser chamado de Satânico, é preciso que esteja de alguma forma relacionado com estes princípios e valores, de modo a compartilhar esta unidade e justificar o rótulo.

É simples... Uma manifestação artística dita cristã, tem, necessariamente, para que se justifique tal rótulo, valer-se de temas, de figuras, conceitos, valores, enfim, de elementos que pertençam ao cristianismo. Parece óbvio, não? Mas como sempre falo, é justamente o óbvio o mais difícil das pessoas entenderem.

Pois, ora, como pode uma obra de "arte" dita Satânica ser assim chamada se não traz à tona nada pertencente ao Satanismo?

Entra em questão então o que viria a ser pertencente ou não ao Satanismo...

E aí o que vejo é que boa parte daquilo que é considerado satânico não passa de elementos puramente estéticos. Coisas das mais superficiais, ou o que gosto de chamar de manto negro do Satanismo. Este tal manto negro diz respeito à parte "externa" do Satanismo, aquela que se tem numa primeira vista. Excessiva crítica ao cristianismo, valorização da cor negra, do ódio justificado, da imagem dos demônios, da aparência "monstruosa" de Satan, das velas, pentagrama, enfim... Existe uma série de elementos não textuais que dão este "toque especial" ao Satanismo. Particularmente penso que tudo isto só contribui para que adolescentes sedentos por auto-afirmação (e muitas vezes adultos também...) se prendam a esta parte "teatral" que tem muito o que mostrar, mas pouco a dizer.

E é justamente este "manto negro" que vai ser percebido em pinturas, textos, músicas, e outras produções, e que vai justificar o rótulo de Satânico. Mas ora, será que isto basta?

O que tem de ser colocado em questão é: em primeiro lugar, estes elementos do "manto negro" são exclusivos do Satanismo? Em segundo lugar, ainda que sejam de fato unicamente pertencentes a ele, expressam ainda assim conceitos, valores, idéias e pensamentos verdadeiramente Satanistas?

Continua na Parte II...

Satanismo uma religião? Então não quero, mamãe

Escrito por Recanto do Opositor

Existem alguns pontos que, não adianta, só mesmo depois de muita repetição de alguns mesmos conceitos é que parece que serão esquecidos. E às vezes nem assim. Eu já dediquei várias palavras neste blog no que diz respeito a máxima de "Satanismo é uma religião", bem como já comentei sobre os motivos pelos quais as pessoas criaram certa repulsa com essa classificação.

Eu não vou repetir o que já falei no sentido de defender a classificação do Satanismo como religião. Basta ler o que já foi dito. Entretanto, acho que seria útil colocar alguns pontos de reflexão. Isto, pois parece que, mesmo entendendo Satanismo como uma religião, alguns se vêem incapazes de atestarem isto para si, e então vemos coisas do tipo "ah, Satanismo pra mim é filosofia de vida", "ah, Satanismo pra mim não é religião, ainda que eu concorde com ele". Assim sendo, que tal pensarmos um pouco mais...? Vamos por partes, tomando como base alguns dos clichês que vemos por aí...

Toda religião pressupõe um deus a ser seguido

E quando o deus somos nós? E quando a instância da divindade se dá no vigor do ser, na existência do homem sob os limites do indivíduo? E quando a crença em qualquer outra entidade metafísica é posta de lado para que nos prendamos à realidade tal qual ela é compreendida a partir de nossos sentidos, a despeito de crenças em monstros, espíritos, entidades sobrenaturais, coisas ocultas, etc etc etc? E quando o "ser deus" é simplesmente viver intensamente e aproveitar toda a potencialidade de nosso destino e de nossa vida sem que nos prendamos a valores, regras e conceitos que vão contra a nossa satisfação, meta esta que se constitui como a máxima de todas as ações humanas?

Toda religião pressupõe dogmas a serem seguidos

Quem determina a condição absoluta de uma regra? Seria a concepção de dogma apenas a idéia de algo inquestionável, ou, de forma mais branda, configura-se como dogma um dos princípios básicos dentro de um sistema de idéias? Mas ora, então, diriam, ainda que seja básico, estes princípios possuem uma força tal que justificam o termo dogma... Naturalmente, mas não seria o dogma em si justamente um princípio que fosse justamente forte e extremamente importante para a base de um determinado pensamento, e, que isto, não necessariamente, pressupõe uma aceitação cega? Ora, se o Satanismo em momento algum se coloca como conduta última e a única verdadeira para a vida do homem, pode então seus dogmas possuir uma condição absoluta de modo a se tornarem inquestionáveis? Se o Satanismo promove o livre pensamento e a crítica acima de tudo, como pode então seus próprios conceitos estarem acima disto? Assim sendo, não seria os dogmas do Satanismo por essência, tal qual toda a religião Satanista em si, passiva em primeira instância de questionamento e aceitação individual?

Toda religião determina sua respectiva prática ritualística

Ora, de fato, uma das características daquilo que chamamos de religião é justamente uma proposta ritualística, tanto no que diz respeito à teoria quanto a prática que a sucede. Entretanto, se o Satanismo em momento algum determina uma forma ou outra de prática ritualística como a única correta, como podemos então dizer que o Satanismo enquanto religião nos obriga a agir de modo X ou Y em nossas práticas ritualísticas? E mais do que isto, se a própria aceitação daquilo que o Satanismo sugere enquanto teoria com relação à magia, isto é, a própria maneira como o Satanismo entende e define magia, é passível de questionamento, como podemos então considerar a religião como impositória? Ou seja, se até mesmo a crença na magia, tal qual é posta pelo Satanismo, não se constitui como inquestionável, ou como algo a ser aceito e praticado, como podemos dizer então que isto limita nosso agir e pensar?

Assim sendo, eu quero que alguém me exponha um argumento minimamente plausível para não aceitar o Satanismo como uma religião. Se não há um Deus a ser seguido cegamente, se não há qualquer dogma a ser aceito sem que antes haja uma aceitação individual, e se a parte ritualística no que diz respeito tanto à prática quanto à teoria também é passível de aceitação e questionamento, qual o motivo então de não dizer: ajo de acordo com os princípios do Satanismo e o aceito como uma religião que é?

E mais do que isto, por qual motivo dizer: bem, sigo o Satanismo mas tirando tudo aquilo que é religioso, fico só com a parte filosófica? Se retirarmos o que chamo de "proposição de conduta" do Satanismo, o que sobra? A parte ritualística, e a crença. Mas ora, e se tirarmos a parte ritualística, o que sobra então? A crença. Mas ora, ainda que admitamos a crença Satanista no sentido de entender o indivíduo como a instância da divindade, de que adianta esta idéia se ela não se reflete em ações, em atos, em comportamento? Pois, a partir do momento que isto implique mudanças práticas, se podemos dizer assim, então, necessariamente, já estamos trazendo de volta a parte da "proposição de conduta"!

Ok, vamos tirar a parte ritualística, a proposição de conduta e as crenças Satanistas. O que sobra então? A resposta para muitos é: ateísmo. Mas ora, se estamos a falar somente de ateísmo então, resta a óbvia pergunta: o que seria então Satanismo? Ou seja, reduzir a religião e toda a complexidade de seu sistema a uma simples não crença em um deus, e bem, em 90% dos casos de interpretação, no deus cristão, não seria simplesmente acabar com o que define o Satanismo enquanto Satanismo? Satanismo não é ateísmo. Satanismo não é humanismo. Satanismo não é hedonismo. Satanismo não é individualismo. Satanismo não é egoísmo. Satanismo é tudo isto junto, e mais um pouco. Pois o todo não é simplesmente a soma das partes, e o Satanismo não é tese mais antítese: é síntese. E síntese não é nem tese, nem antítese. Ao contrário da lógica matemática, quando falamos de idéias, conceitos, leituras, interpretações, enfim, A + B não é AB e sim C!

Assim sendo, meu caro, não tenha medo. Quer ser Satanista? Quer aceitar os conceitos propostos pela religião? Então você é um religioso. Erga sua cabeça e cuspa neste pensamento pequeno do "oh, mas o que meus coleguinhas vão falar de mim se souberem que eu estou seguindo uma religião?!?!". Se ELES e o RESTO DO MUNDO se bitolam com pensamentos religiosos (bem como outros das mais diversas naturezas), o problema não está somente na religião em si (talvez até esteja em muitas, mas não é o caso do Satanismo), mas sim em quem SE PERMITE limitar-se.

Desconsiderar a natureza do Satanismo e todos os seus elementos que o constituem como religião, deixar do lado a possibilidade de um indivíduo acima de qualquer imposição religiosa, bem como a possibilidade de termos uma religião tal qual o Satanismo, que prega o questionamento e a liberdade de pensamento; tudo isto pelo simples fato de estar na moda falar mal de religião e por alguns de nossos coleguinhas ateus se sentirem superiores por serem livres o suficientes a ponto de recusarem toda e qualquer religião? Não!

Se sou um indivíduo livre e meu pensamento está acima de qualquer imposição religiosa, qual o problema em adotar uma religião e não ser por ela bitolado? E mais do que isto, se há uma religião que não adota em momento algum a postura do "você DEVE fazer isto e não aquilo" em momento algum, por qual motivo negar sua natureza de religião, que é justamente o que a define como X e não Y?

Não gosta de religião? Acha feio? Adora falar mal delas? Acha que cristianismo é o único pensamento religioso do mundo? Sente vergonha de ter uma religião? Não se sente capaz o suficiente de apreender conceitos de um sistema religioso sem ser por ele controlado?

Então, meu caro, só lamento por você. Satanismo não vai deixar de ser uma religião por isso. Discorda? Estou esperando seu texto de réplica na caixa de entrada do meu email então. Agora, gritos histéricos de rebeldia típica do ateísta militante, dispenso.

Alienação e neutralidade: cúmplice e delator - Parte II

Escrito por Recanto do Opositor

Continuação da Parte I...

Parece contraditório, mas não é. A instância do indivíduo dá-se, antes de qualquer coisa, numa esfera social. Ninguém nasce sozinho numa ilha e nela vive. O homem é um animal social, e toda a nossa vida, a despeito de exemplos fantasiosos, é pautada por relações, por interação, por comunicação. A própria faculdade da linguagem pressupõe um fim comunicativo; não fomos feitos para vivermos sozinhos. E poderia vomitar dezenas de argumentos, mas creio que isto seja facilmente assimilado. Assim sendo, uma vez que dependamos desta esfera social, também somos por ela determinados. Naturalmente, não estou aqui querendo anular a vontade individual, de forma alguma. Mas ela é a última parte da história, se podemos dizer assim. Complementando a frase já utilizada, temos uma máxima que, a despeito da não-aceitação de muitos, não pode ser ignorada: todo ato, toda prática social e todo o pensamento que a pressupõe não são em última instância determinados pelo indivíduo, pelo nosso bem querer, ou uma vontade pessoal maior; mas sim pelas condições históricas, sociais, culturais, políticas e econômicas que permitem que estas ações se realizem de uma forma ao invés de outra.

Vamos exemplificar... Eu só posso estar escrevendo este texto, por dispor de um meio de comunicação que é a internet. E eu só posso depender da internet, por haver um desenvolvimento tecnológico tal que o permita, e mais do que isto, que hajam condições políticas, econômicas, materiais e culturais para sua ocorrência. E eu só posso também, por minha vez, escrever sobre Satanismo, uma vez que tenha havido um rapazinho chamado Anton LaVey para organizar e instituir a religião Satanista. E este rapazinho, também só pode escrever sobre um sistema religioso baseado no conceito do "contra", por haver à sua época uma determinada gama de pensamento que, não somente não se valia de preceitos defendidos pelo Satanismo, como também, ao mesmo tempo, os possibilitava surgir.

Certamente, se formos adotar este tipo de pensamento precedente, no sentido de tentar apontar as condições de formação de uma determinada prática e pensamento, acabaremos chegando em Adão e Eva, Big Bang, e outras coisas do tipo. Mas a questão não é alcançar a origem de tudo, o ato primeiro, a unidade da qual partem todas as coisas. Religiões e filosofia já o fizeram por anos. Não é este tipo de reflexão que desejo desenvolver. E o motivo é muito simples: pensar num tempo X, pressupõe inexoravelmente pensar no tempo X-1 e no tempo X+1 (e não me venham com masturbações matemáticas abstratas, é apenas um exemplo). Ou seja, nossa mente, por ser limitada a noções de tempo-espaço, não nos permite pensar em um momento do tempo tal (o início de tudo) sem que pensemos necessariamente no que o precede e no que o sucede...

Voltando ao nosso ponto principal, o que convém entender é que o indivíduo detém sim o poder de escolha no sentido de optar por agir de uma forma A, B ou C. Entretanto, a constituição de A,B e C como possibilidades de escolha pressupõe o indivíduo. Exemplo crasso? Você pode optar por ser Satanista ou cristão, mas não pode escolher, por exemplo, uma religião que não lhe seja conhecida. Até o próprio sincretismo religioso pressupõe que haja religiões possíveis para você misturar. Parece óbvio, não? E é, e justamente por isto é tão difícil de se entender... E caso nos questionemos a respeito de cada escolha, veremos que todas as opções se formam antes de nós, e a elas estamos diretamente ligados.

E, como sempre, a mesma pergunta: o que diabos tem isto a ver com o Satanismo?

A valorização satanista do indivíduo vale-se de diversas "imagens-conceito": um indivíduo de livre pensamento, o homem enquanto senhor de suas vontades e seu destino, o cara que consegue aquilo que deseja através de suas próprias forças, um alguém que age por si só e tenta não depender dos outros para alcançar seus objetivos, etc., etc., etc. Esta valorização não é gratuita. Se virarmos nosso pescoço para olhar melhor para algo que está à nossa esquerda, o campo de visão do lado direito é reduzido. Assim sendo, pensar demais no eu, enquanto a instância do indivíduo, necessariamente acaba por fazer com que pensemos menos naquilo que o cerca. Ou seja, todo este papo de indivíduo como dependente de seu contexto histórico social é simplesmente esquecido.

Entra então em questão o mito da neutralidade, e a dialética do cúmplice e do delator.

Continua na Parte III...

Alienação e neutralidade: cúmplice e delator - Parte I

Escrito por Recanto do Opositor

Que o Satanismo é a religião do indivíduo, isto não precisa ser explicado. Que é o pensamento que o coloca no centro de suas ações, como responsável primeiro pelas conseqüências destas, e como meio e finalidade última de seus atos, isto também não precisa ser dito. Entretanto, toda esta valorização, como de praxe, possui seus excessos. Aliás, diversos. De falta de reciprocidade à auto-afirmação, passando por egolatria vazia, há o que, poderíamos dizer, invertendo a preferência das cores, lado "branco" do Satanismo. As brechas para uma interpretação equivocada, seguida de uma prática completamente deturpada são, a meu ver, os principais problemas da religião. Não vem ao caso tecer agora palavras sobre os motivos, mas o Satanismo justifica, a partir de si mesmo, o luxo e o lixo, ou, também poderíamos dizer, a prática verdadeiramente Satanista e o mauvadismo.

Dentre tais excessos, tenho percebido um em especial que, assim como os outros, camufla-se em nossa mente de modo a acreditarmos que não estamos fazendo absolutamente nada de "errado" ou prejudicial. Esta é a natureza mais perversa de um problema: manifesta-se ele como uma doença sem qualquer sintoma, e, quando nos olhamos no espelho, pensamos estar o mais saudável possível.

Ok, e qual é então este problema? Como o leitor deve imaginar pelo título, tem a ver com uma tal neutralidade... É simples de entender...

Entre valorizar o indivíduo e superestimá-lo há uma linha muito tênue. E quando passamos a colocar o indivíduo numa instância que não lhe é cabida, eis o problema. Há uma típica idéia de que uma vez que sou detentor de meu pensamento e palavras, é a partir de e exclusivamente de mim que estas são formadas, concebidas, expostas. Assim sendo, me distancio de quaisquer outros fatores que os determinem, e, desta forma, excluo de mim qualquer responsabilidade com relação a estes.

E quais seriam estes fatores?

Todo ato, toda prática social e todo o pensamento que a pressupõe não são, em última instância, determinados pelo indivíduo, pelo nosso bem querer, ou uma vontade pessoal maior. O que somos, o que fazemos, o que falamos, o que pensamos, não vem do nada. Da mesma forma que se trata de uma bela de uma bitolação acreditar que tudo o que ocorre em nossa vida são desígnios do papai do céu barbudo e todo poderoso, também é uma plena limitação acreditar que o indivíduo é senhor último de seus atos, palavras, pensamentos.

Mas ora, que absurdo, como posso estar lendo isto num blog dito Satanista?

Continua na Parte II...

Alienação e neutralidade: cúmplice e delator - Parte III

Escrito por Recanto do Opositor

Continuação da Parte II...

Quando somos testemunhas de um assalto, de um assassinato, ou qualquer outro delito, das duas uma, ou ignoramos o fato, ou o reportamos para as autoridades responsáveis. Se virmos o ocorrido e o denunciamos, estamos agindo, estamos contribuindo para que o bandido sofra as conseqüências de seu ato, ou, a partir de uma visão mais "bonitinha", para seja feita justiça à vítima. Assim sendo, estamos indo contra a possibilidade de ação oposta. Ora, se não denunciamos, estamos necessariamente agindo como cúmplices, na medida em que permitimos a manutenção da situação e deixamos de lado toda e qualquer potencialidade nossa de ação, de mudança, de contestação.

Nesta situação fica muito fácil de entender como é o mito da neutralidade. Se vimos o ocorrido, já estamos numa relação direta com ele, e, ignorá-lo, não é manter-se neutro, uma vez que, a possibilidade de ação não é deixada de lado. Ou seja, se você poderia ter feito algo e não fez, não agiu de forma neutra. Não há qualquer neutralidade quando somos partes da situação, ou dela temos conhecimento. Só há neutralidade plena quando não há lados para escolhermos. Ou seja, eu só posso me manter neutro numa disputa que seja por mim sabida. Mas ora, aí estamos a falar de desconhecimento, e não de neutralidade.

Naturalmente, a postura de não fazer nada, de ignorar, é sempre a mais confortável, a mais cômoda, a que dá menos trabalho, a que joga com conseqüências mais seguras.

Mas ora, e onde entra todo aquele papo do "contra" Satanista? O arquétipo de Satan é então em uma de suas interpretações completamente esquecido... E o que temos? Alienação Satanista.

A despeito da vasta utilização do substantivo e seu respectivo verbo, é preciso pensar no que de fato isto significa. Alienar-se nos remete às origens gregas da palavra, na qual o radical "alien" significa, dentre outros e a grosso modo, "o outro". Daí temos, por exemplo, em inglês (além do filme do monstrengo espacial), dentre outras significações, "alien" como estrangeiro. Ou seja, alienar-se é tornar-se o outro. E o que isto importa a nossa discussão? Ora, acreditar que se mantém neutro em uma situação de conflito significa simplesmente ser cúmplice com uma dos lados, logo, você acaba por estar também nele. Passa-se a jogar no mesmo time, passa-se a "vestir a camisa" do outro, e ignora-se o seu poder de atuação, de mudança.

E aí então eu pergunto, novamente, por onde anda o Satan adversário nesta história toda? LaVey por algum acaso adotou a postura de manter-se "neutro" diante de tudo aquilo que ele via nas ações e pensamentos das pessoas?

Pergunto isto, pois vejo muita acomodação camuflada por entre as idéias Satanistas. E, claro, acomodação esta justificada justamente por conta do mito da neutralidade. E nisto, vamos caminhando de acordo com o fluxo do rio, sem que de fato exerçamos nossa força de ação enquanto indivíduos. O que resulta nos vários: o que tenho a ver com isto se sou eu o senhor de minha vontade e destino?

Em suma, o mito da neutralidade justifica e corrobora a alienação. E a alienação, por sua vez, deixa completamente de lado o caráter de ação e de oposição do pensamento Satanista.

O leitor mais atento pensaria: hummm, maldito comunista e sua retórica de pseudo-satanismo! Mas não é bem por aí... É justamente o contrário. A desconstrução de um falso eu desvinculado de seu meio e de seu contexto traz por conseqüência justamente uma valorização fidedigna da instância do indivíduo, ao invés de colocá-lo num pedestal prestes a cair. E mais do que isto, não se trata de suscitar nenhum tipo de ativismo. Até pelo fato de que não estou indicando especificamente qualquer tipo de problema nem incitando ninguém a agir de forma concreta contra qualquer coisa. Trata-se apenas de um trabalho de reflexão que pode ou não resultar em conseqüências concretas. A despeito das conseqüências mais práticas, o importante é deixar de lado, ao menos no nível do pensamento, este deslocamento do eu para fora de seu círculo. Compreender o funcionamento de qualquer máquina é o primeiro passo para poder sabotá-la. Eu disse... qualquer.

O processo de tomada de decisão

Escrito por Recanto do Opositor

Seria de prever que, enquanto Satanistas, o processo de tomada de decisão não fosse demasiado complicado. Estamos conscientes do nosso racionalismo, sabemos ponderar vantagens e desvantagens, escolhemos a opção que seja mais proveitosa para nós enquanto indivíduos e que esteja alinhada com qualquer que seja o nosso propósito. Como disse, simples. Então, porque é que na prática isso não se verifica?

Satanismo é prática, e portanto falo de um caso concreto – estou perante uma difícil escolha a tomar. Todas as fáceis são fáceis de tomar, por definição. Mas não esperaria que esta fosse tão difícil. Seria de esperar que quando sabemos o contexto, quando percebemos as variáveis, quando dominamos o domínio, as dúvidas fossem menores – mas nunca o é quando estamos a falar de paixão, de algo que é parte de nós próprios. E não, não no sentido carnal – no sentido criativo, na nossa capacidade de marcarmos uma diferença com o fruto das nossas acções.

O que me surpreende mais é talvez a capacidade de sacrifício numa situação insustentável a longo termo, para evitar a ruptura com algo que é parcialmente nosso. É difícil desligar este lado primordial da nossa personalidade, porque é também o que nos mantém tão próximos do nosso Satanismo. Mas, no final, racional e emotivo unem-se na percepção comum que a decisão há muito já estava feita – o que realmente custa é convencermo-nos que é a decisão correcta a tomar, face à situação.

Talvez a diferença no caso do Satanista esteja no laço que estabelece com as suas criações. É uma criatura de paixões, de genuíno envolvimento emocional com o processo de criação, que o move a continuar a viver. E isso acarreta um custo, que se torna um fardo quando estamos perante decisões difíceis. Mas também elas nos ajudam a definir enquanto indivíduos. Enquanto Satanistas.

Autoria: Lurker (caríssimo membro de grande respeito da APS)

O mito do "eu sei" - Parte II

Escrito por Recanto do Opositor

Continuação da Parte I...

E quem não tenta se afastar desta tendência não faz idéia de como isto é tão comum. Eu lhes dou um exemplo... Imaginem qualquer discussão de buteco, fórum, orkut, enfim... Num tema X, eis que alguém toma a palavra e diz (ou posta):

"Eu acho que as manifestações artísticas são um reflexo dos valores morais da cultura de nossa sociedade. "

Eu, como bom preconceituoso e metido a besta que sou, já pararia de ler no "eu acho". De "euachos" já vi as coisas mais imbecis. E com certeza não seria diferente agora... Mas vamos lá... Voltemos à frase. Repare que nesta simples sentença, uma frase pequena e aparentemente cheia de certeza, estamos a lidar com conceitos e idéias absurdamente vastos e complexos: arte, valor, moral, cultura e sociedade. O que é arte? O que é valor? O que é moral? O que é cultura? O que é sociedade? Há centenas de livros escritos tratando das mais diversas questões, características, pontos principais, etc. destes conceitos e idéias. Não somente tratando disto, como a própria definição destes! Se alguém quiser falar sobre X é preciso definir o que é X. E ora, se nem mesmo os grandes autores de sociologia chegam a uma definição última de cultura, por exemplo, como posso eu, que não sou um destes, que não tive a carga de leituras e estudo deste, posso me julgar capaz de chegar até ela?

Reparemos que o processo que deve ser feito não é o de partir de nossas idéias e montá-las a partir de conceitos e pontos que achamos que dominamos para satisfazer a lógica interna de nosso argumento e a ele dar algum tipo de respaldo. É justamente o contrário. É preciso esmiuçar, antes de tudo, qualquer conceito mais amplo que iremos utilizar, e tentar definir exatamente nosso campo de idéias.

Mas ora, perguntam-me então, se eu fosse fazer o exercício do "mas o que é X" para cada elemento de uma idéia minha, eu nunca conseguiria chegar a lugar nenhum. E aí, entra aquela nossa velha frase, que até já cheguei a citar aqui uma vez: tudo que sei é que nada sei. Sócrates, até onde se sabe, autor da máxima, faz com que tenhamos a origem desta a muito tempo atrás, antes mesmo de Cristo... Se naquela época pode ele pensar isto, tomemos então o mundo em frenesi informacional que temos hoje! Só faz mais sentido.

Para "chegarmos a algum lugar" é preciso muito. Mas muito mesmo. E mais do que isto, é preciso muita força, para muito pouco se deslocar. Não precisa ir muito longe. A despeito dos críticos de plantão do apelo à autoridade, que só o fazem para tentarem se igualar, sem qualquer esforço, a quem se encontra acima deles, basta pensarmos em termos de ensino institucionalizado. Desconsiderando todo e qualquer fator individual mais específico, eu, por exemplo, que faço uma graduação em Física, não tenho os mesmos conhecimentos de quem faz Antropologia. É óbvio que isto não impede de alguém que faz física conhecer algo de antropologia, ou o contrário. É óbvio. Mas isto não anula que um possui a priori uma carga de aulas, leituras, reflexões e debates dentro de um determinado campo do conhecimento que o outro não tem! Isto é tão simples quanto dizer que, se eu leio um livro e você não, eu sei mais sobre ele do que você!

É tudo uma questão do tempo desprendido em função de algo. Se eu tenho 20 anos de estudo e opto por dividi-lo em 10 anos para biologia e os outros 10 para psicologia, eu não vou "saber mais" sobre antropologia do que quem dedicou a ela os mesmos 20 anos! É também ÓBVIO que não se trata de medir quem sabe mais ou menos, não se trata de testes de QI ou aplicar provas nas pessoas sobre determinados assuntos, a questão NÃO é essa. Conhecimento não se mede, não se quantifica.

O grande ponto reside numa simples questão. Pergunte-se a si mesmo: quem sou eu para falar isto ou sobre isto.

Não adianta, ainda no mesmo exemplo, não dá pra conversar sobre um livro com uma pessoa que não leu o livro...! Não dá! E ora, se você disser "você não leu o livro, se eu falar sobre ele, você não vai entender" não se trata de arrogância! E quem o pensa sob o argumento de "oh, você está se colocando acima de mim" está errado! É justamente ele que está "abaixo" por não compartilhar a mesma carga de saber, o mesmo livro!

Parece algo simples, mas estamos diante da mais comum forma de pensar. E é justamente neste mito do "eu sei" que não deve o Satanista crer. Mais do que colocar-se como centro do mundo e de sua própria vida, é preciso reconhecer a nossa pequenez diante destes, e que, o pensamento, o conhecimento e as reflexões que se fazem acerca de nossa existência, são dotadas de uma complexidade e vastidão infinitas, que não podem ser reduzidas por apenas um cérebro e apenas uma vida. Crer que pode fazê-lo é incorrer em pecado de auto-ilusão.

Não se trata de querer eu com estas palavras justificar uma arrogância intelectual baseada em títulos, diplomas ou coisas do tipo. Não é isto. Trata-se apenas de tentar freiar uma tendência natural que o mundo nos força a ter: a tendência à mediocridade, à superficialidade, ao rápido, ao resumido, ao digerido. Deixe de lado a preguiça de ler por horas, de refletir sobre o lido, de reler, de ouvir outros pontos de vista. Canse-se, aproveite seu tempo. Seja mais. Queira mais. Inércia e mediocridade não são Satanismo.

O mito do "eu sei" - Parte I

Escrito por Recanto do Opositor

As coisas, as pessoas, a tv, a internet, a vida, o mundo, e muitas outras coisas mais, a cada maldito segundo de nossa vidinha frenética modernosa, nos vomita conceitos, idéias, pensamentos, informação. Junto a este fluxo inesgotável, encontra-se o sujeito, o indivíduo, eu, você, num pedestal tal no qual nos deleitamos com a ilusão de tudo poder, de tudo fazer, de tudo saber. O Satanismo também por sua vez é muito perigoso com relação a isto. Inputando ao indivíduo um poder de escolha, uma noção de responsabilidade e, em termos de forma, valorizando-o acima de qualquer coisa, acabamos sempre na velha história da auto-ilusão. E pior que você se auto-iludir com relação a X ou Y, é você se auto-iludir achando que não está se auto-iludindo! Este é o maior dos perigos...

É extremamente difícil para qualquer pessoa deixar de lado suas seguranças, suas certezas, suas convicções. E, ao contrário do que você, malvadista, ateu ou bitolado deseja pensar, a ilusão das próprias verdades não é algo de cristão, evangélico ou teísta. Pelo contrário, isto diz respeito a todos nós. Todos temos mentalmente um conjunto de valores, de verdades, de proposições máximas, de formas de conduta, de métodos de interpretação da realidade. O problema não está em ignorá-los, uma vez que isto é impossível, mas sim ter a capacidade, habilidade, ou até mesmo humildade (eu diria auto-reconhecimento), de transformá-los, desenvolvê-los, aprimorá-los.

Naturalmente, para tal, é preciso que nos valemos de uma palavrinha: trabalho. Quem é dos ramo dos cálculos e números sabe que o trabalho é o produto da força vezes o deslocamento. Ou seja, trazendo para termos menos matemáticos, este resultado aumenta na medida em que saiamos do lugar, isto é, deixamos de estar aqui para estar lá, deixamos de ser o que somos, para nos tornarmos algo de diferente; e, na medida em que torna-se mais intenso nosso esforço. Ou seja, precisamos nos mecher, e quanto mais longe é nosso destino, maiores são os passos e mais força e mais tempo são gastos. E para que estou dizendo tudo isto?

Reparem que estou utilizando dois conceitos básicos: tempo e trabalho. Viver é ser na dimensão do tempo-espaço, e quanto mais trabalho há para ser feito, mais força se faz necessária, mais tempo é preciso. Isto parece lógico, não? Pois é, o óbvio é justamente o mais difícil de ser compreendido.

Pergunto a vocês, se um bom desenvolvimento pressupõe tempo e esforço, como podemos hoje crer que podemos alcançar o mundo com nossas mãos, assim, de uma hora para outra? Como posso eu acreditar que domino algum tipo de pensamento, sistema de idéias, ou o que quer que seja, se não desprendi tempo o suficiente para conhecer cada uma de suas peculiaridades, e, mais do que isto, efetuar analogias, relações e confrontos com outros sistemas e pensamentos? Como posso eu me julgar apto a falar, descrever, explicar ou defender uma determinado argumento, postura, ou tese, enquanto que houveram homens, por exemplo, que passaram a vida inteira dedicando-se a refutá-la? Como poderei eu manter-me seguro em minha posição sem conhecer, por minha vez, o trabalho destes homens? Como posso eu limitar a infinitude das palavras, do pensamento, dos conceitos, limitando estes, a meu-bel prazer, numa ilusão de ser capaz de esgotá-los?

Pois é, meus caros, é justamente o adotar da postura de superficialidade, do limitado, do medíocre, do automático, do resumido, o ato mais comum em tempos modernosos. O aumento exacerbado da velocidade da difusão informacional, bem como um respectivo aumento de quantidade destas informações, nos faz querer mais, por cada vez menos. O que importa hoje em dia é acumular o máximo de dados mastigados, fechados em si próprios e sem qualquer profundidade. É exatamente esta a postura na vastíssima maioria nos meios de quem supostamente pensa, lê ou estuda.

O problema dá-se da seguinte forma: a valorização do sujeito moderno faz com quem o indivíduo se sinta apto e capaz para dizer "eu sei", e a difusão informacional massiva (eu não quis dizer "para as massas"), por sua vez, lhe fornece meios de comunicação suficientes para que possa ele ter acesso a uma grande quantidade de idéias, valores e pensamentos que, por não saírem dos níveis da superficialidade, podem ser facilmente alocados em seu "conjunto de saberes".

Continua na Parte II...

Fé Satanista: ritual, magia, crença

Escrito por Recanto do Opositor

O texto que segue é uma resposta enviada via e-mail a um colega que questionou o fato de eu utilizar o termo fé associando-o com o Satanismo, uma vez que outros Satanistas em suas opiniões publicadas, deixaram de lado este aspecto em nome da valorização de seu ceticismo. A questão já foi abordada em outros momentos, mas não custa nada "mastigar" um pouco mais.

Antes de entrarmos na questão de ter ou não o Satanismo fé, é preciso primeiro entender o que é a fé, e de que forma ela é compreendida. O senso comum nos coloca a fé contra a razão, caracterizando ela como uma crença que se estabelece por si só, sem a necessidade de uma comprovação empírica/racional/científica com relação a algum fenômeno. A fé se encerra em si mesma, e não depende de uma "constatação externa". Ela se manifesta no nível do indivíduo, é uma crença subjetiva. Em tempos modernos de valores cada vez mais científicos, é então posta abaixo esta idéia de uma crença que independe da ciência, retirando assim sua validade. E o que ocorre? Ninguém hoje em dia quer dizer que tem fé, a menos os religiosos convictos e crentes (quem crê, não apenas evangélicos) num geral. É feio, pega mal, e você ainda é tachado de cego. Enfim, todo satanista já passou pela fase de crítica a valores e idéias que dependem da fé e optaram por adotar o ceticismo. De tal forma, é comum esta negação presente nos discursos de muitos satanistas. Comum e plenamente justificada; a fé nos leva a acreditar em deuses, a se submeter a eles, a limitar-se em religiões, enfim. Todos sabemos os "problemas da fé". E todos falam disto. Eu não sigo por este caminho, não vou repetir o óbvio. Pelo contrário, minhas palavras têm por intuito justamente lembrar que o Satanismo também possui sua dose de fé. Basta lermos o primeiro parágrafo da BS logo no primeiro texto sobre a teoria da magia:

A definição de magia, tal como é usada neste livro, é: "A alteração de situações ou acontecimentos de acordo com a vontade do indivíduo, os quais, usando-se métodos normalmente aceitos, seriam inalteráveis". Isto admitidamente deixa muito espaço para a interpretação pessoal. (...) A magia nunca é totalmente explicável pela ciência, mas a ciência sempre foi, numa época ou noutra, considerada magia.
A Bíblia Satânica, versão Portuguesa, página 123

Ou seja, a partir do momento em que "aceitamos" a magia, estamos partindo de uma crença de que nossa vontade pode ser capaz de exercer algum tipo de influência tal que faça com que os eventos se modifiquem de modo a satisfazer nossos anseios. Você é capaz de estabelecer uma relação de causa e efeito a partir disto?

Se faz-se um ritual, no qual é mentalizado que você deseja muito uma pessoa, e por um total acaso do destino, você acaba por encontrar ela numa situação onde a interação fosse possível e mais do que isto, as circunstâncias todas operam a seu favor, como podemos dizer que estas "circunstâncias propícias" se realizaram no tempo graças a seu ritual e respectiva vontade? Como medir, calcular, determinar, prever, enfim, como entender isto aos olhos da ciência? É o mesmo que dizer que alguém foi curada de uma doença X por ação divina. Não podemos reduzir isto aos nossos valores empírico-científicos, e o mesmo ocorre na questão da magia Satanista.

Nem mesmo o próprio LaVey se aprofundou nesta relação de causa e efeito entre vontade e determinados eventos, uma vez que não há o que dizer nem o que provar ou argumentar; trata-se de uma crença. Entretanto, há dois pontos fundamentais em toda esta questão. O primeiro diz respeito aos propósitos do ritual. Basta lembramos-nos das palavras da BS:

A magia ritual consiste na realização de uma cerimônia formal, tendo lugar, pelo menos em parte, dentro dos limites de uma área escolhida para esse efeito e numa altura específica. A sua função principal é isolar a energia adrenal que, de outro modo, se dissiparia, e outra energia emocionalmente induzida e convertê-las numa força dinamicamente transmissível. É um ato puramente emocional e não intelectual.
A Bíblia Satânica, versão Portuguesa, página 124

Repare que neste trecho há uma tentativa de agrupar e especificar energias e de pressupor uma forma de atuação. O que de certa forma trata-se apenas de uma organização, uma vez que estas forças e tipos de energia não constituem qualquer teoria científica ou caracteriza-se como uma metodologia para a análise de um fenômeno. O que corrobora o que disse anteriormente. Mas o principal deste trecho é quando se descreve a função do ritual. Percebamos que a mudança dos eventos é a crença primeira da magia, mas a sua função primeira é a "liberação emocional", se podemos assim dizer. O que vem em primeiro plano é o indivíduo, seus sentimentos, tensões, vontades, fardos, dentre outros, e suas respectivas "descargas". Ou seja, por mais que partamos de uma fé, não se encontra ela acima do corpo, da carne, do sentimento, do que de fato compreendemos por real. Estamos a tratar de nós e do que ocorre com nós, estamos a falar sobre nosso viver, e não sobre um controle metafísico da realidade. E aí entra o segundo ponto. Todo valor e dogma satanista passa primeiro pelo filtro do eu, sendo sua aceitação uma questão de escolha, de opção. O mesmo é com esta nossa fé.

Ou seja, não estamos a lidar com uma fé cega, acima do indivíduo e de suas escolhas. É fato que não se trata de ciência, e qualquer nível mínimo de ceticismo pode anulá-la sem titubear, mas ora, se assim for, qual o problema? Serei menos Satanista por não crer que emoções, sentimentos, pensamentos e rituais possam implicar efeitos na ocorrência de eventos em minha vida? Ou ainda, serei menos cético por crer que isto é possível, sem que esta crença influencie negativamente minhas ações, condutas e pensamento; sem que isto me cegue ou me limite?

Assim sendo, nem 8 nem 80. O sistema religioso Satanista pressupõe sim uma crença não científica. Seria muito conveniente eu atacar a alheia sem deixar claro que também possuímos uma. Agora, quais conseqüências esta crença vai ter, só mesmo o indivíduo em sua prática (ou a ausência dela) para dizer...

O Eu e o Destino - Parte II

Escrito por Recanto do Opositor

Continuação da Parte I...

E quem disse que precisamos dar um nome, conhecê-la ou explicá-la? Se não podemos fazê-lo, por qual motivo tentarmos?

É claro que isto não significa colocar a baixo todo e qualquer conhecimento desenvolvido pelo homem... Longe de mim. Mas, o que de fato é o homem? O que de fato é o que determina quem nós somos. Ou ainda, o que somos? O que é aquilo que possuímos e que nos torna humanos, que nos torna vivos, que nos faz ser? É exatamente o nosso destino. Será que somos o que temos, o que construímos, o que desenvolvemos, ou somos o nosso destino? Seria eu minha casa, minha família, meu dinheiro, diplomas, etc., ou sou eu o meu destino, as minhas escolhas, os meus pensamentos, as minhas possibilidades? Não nego o que tenho, não nego o que possuo, não nego todo o aspecto material da vida. Mas pode tudo isto determinar o que sou? Ou ainda, pode ser o ser determinado? Ora, se o destino é a infinitude de possibilidades, o que determina a ocorrência de uma coisa em função de outra? O meu meio? As pessoas ao meu redor?

Todo este papo ontológico pode ser compreendido se pensarmos na figura do rebanho de ovelhas, analogia tão comum quando nos referimos àqueles que não possuem pensamento próprio, que não questionam, que são guiadas pelo pastor, isto é, controladas por elementos externos, enfim. O que determina o destino das "ovelhas"? Não é seu pastor? Por qual motivo então teríamos tantos outros pastores para determinar o nosso? Mídia, sociedade, cultura, valores, moral, conhecimento, matéria, enfim.

"Mas ora, é impossível não sermos influenciados por estes fatores", diria um. E então lhe pergunto, leitor, o que você é? Você é seu meio? Você é sua família? Você é seu código genético? Você é sua cultura? Você é o que você lê? Afinal, o que você é? Ou ainda, será que temos realmente de responder a esta pergunta? Se eu sou uma coisa, já não estou me determinando? O que então se responderia?

"Eu sou". Melhor, "estou sempre, simplesmente, sendo".

Reparem que este simplesmente "ser" não se atinge ao destruirmos nosso "eu", até pelo fato de que é simplesmente impossível fazê-lo. Não podemos nos colocar em qualquer plano existencial no qual não sejamos sujeito e a nossa realidade o objeto, numa relação dialética onde cada um destes é indissociável do outro. Não podemos atingir a unidade da qual falava anteriormente. Mas ora, o que é viver o mistério, experienciar o desconhecido, revelar o velado? É simplesmente ser. O ser já abriga esta tensão. O destino é este mistério, este desconhecido. E como se lembram, ele é possibilidade. Quando estamos sendo, estamos manifestando uma possibilidade. Caos e ordem não se anulam, nem deixam de ser complementares. A "unidade" que todos buscam está aí, velada, no destino de cada um de nós. E quando a revelamos, reparem que a re-velamos, ou seja, a velamos novamente. O destino, nada mais é que a revelação de algo, que por sua vez torna a se velar, para possibilitar novamente uma outra revelação. Eis o ser e o não ser.

Assim sendo, o ser mais elevado, se podemos dizer assim, é aquele que não possui suas possibilidades limitadas. O indivíduo deve sempre estar sendo, ao invés de apenas ser, tendo como predicativos limites para a potencialidade de seu destino.

Depois de todo este rodeio, filosófico ou não, só nos resta nos lembrar do Satanismo. É claro que tudo o que foi dito até agora nada tem de Satanismo, não formalmente. Em momento algum, ao contrário do que alguns podem querer pensar, falei aqui da religião. Por enquanto...

Isto, pois é justamente no Satanismo onde podemos encontrar não as idéias apresentadas anteriormente, mas sim outras que caminham nesta direção. Se para uns o Satanismo peca em seu materialismo, interpreto-o como apenas uma afirmação da negação do pensamento metafísico, que tenta esgotar o caos ao dar-lhe ordem. Ou seja, trazer para o plano da compreensão aquela unidade, que por si é incompreensível. Assim como fomenta todo o pensamento crítico e questionador, no sentido de não limitar nossas possibilidades em funções daquilo e daqueles que as poderiam bitolar. O Satanismo nos sugere não sermos mais as ovelhas. E não simplesmente deixar de lado os pastores do cristianismo, mas quaisquer outros que nos impeçam de ser o que somos, isto é, de termos nosso próprio destino, pois é ele e nada mais ele aquilo que de fato nos é próprio. O eu satanista não é a limitação do ser, mas sim a reafirmação de seus não-limites! Não precisamos de qualquer espiritualidade avançada, ou qualquer negação do indivíduo para que de fato possamos alcançar nossa plenitude em vida. Basta que construamos nosso próprio destino.

Nota do autor: Tudo o que foi escrito parte de uma série de outros conhecimentos, leituras e estudos de complexidade sem comparação a um texto de blog. O que se tem aqui é uma tentativa de enxugar e muito todo um conjunto de pensamentos que vão desde ramos da ontologia, passando por filosofia e chegando em poética. Qualquer um que tenha interesse por estes campos do pensamento com certeza verá o quão raso tive de ser em minhas palavras. Como disse, trata-se de um blog, com um espaço específico e um público específico, o que determina diretamente o trabalho final. Deixo apenas estas palavras para que fique claro que estou apenas trazendo aos leitores pensamentos que não são "meus" (como se eu os tivesse "gerado" numa tarde de domingo numa divagação filosófica), e que requerem uma carga de tempo e estudo que não posso oferecer, restando apenas a mais pura simplicidade do mais simples possível. E por qual motivo esta "explicação"? Primeiro para justificar possíveis críticas que se baseiem na superficialidade do texto, e, segundo, para não sair como “O” pensador super filosófico por trás dele.

O Eu e o Destino - Parte I

Escrito por Recanto do Opositor

É comum algumas pessoas se assustarem com a maneira com a qual se compreende a instância do indivíduo dentro do pensamento Satanista. Muitas religiões o rebaixam a deus/es, umas outras o dissolvem, e mais alguns outros simplesmente o ignoram. Quanto à história do deus barbudo triplamente oni estar acima do homem, não há muito que se dizer além do que já foi dito. Mas há ainda mais um ponto que por vezes geram certos conflitos de idéias com o Satanismo... Se dentro de nossa religião compreende-se o indivíduo como o centro de tudo, e todo aquele papo que vocês já conhecem, muitos, por sua vez, vêem o "eu" como um limite, como uma fronteira, como uma limitação. Até mesmo que não compartilha este tipo de visão também pode criticar este ponto do Satanismo.

O ponto principal é o fato de que acabamos por deixar que nosso ego determine aquilo que de fato nós somos. Algo como o pecado da auto-ilusão, só que em níveis mais profundos, digamos assim. Diz respeito à noção da completa negação do eu em prol de uma "espiritualidade única". Única não no sentido matemático, mas sim no que diz respeito à unidade das coisas...

Quando digo "unidade das coisas" talvez não cheguemos de cara tão longe...

Estou a me referir à busca de todo ser humano pensante. Queremos a origem, o motivo, a causa primeira, a existência a que tudo deu origem, o início. Queremos sempre responder a todas as questões, não somente por simples conhecimento, mas para que possamos dar um sentido à nossa vida. Todo o pensamento segue um mesmo caminho: descobrir o que está coberto, revelar o que está velado, conhecer o desconhecido. Trata-se da busca pelos "de onde vim", "para onde vou", "o que é o tempo", "o que é a morte", dentre outros. Todas as grandes questões existenciais, estejam elas inseridas em contextos filosóficos, religiosos ou científicos, têm como "resposta" exatamente esta "unidade". Muitas vezes esta unidade é "explicada" a partir de conceitos destes conceitos. E a resposta mais comum, como imaginam, é "deus".

Mas ora, se estamos a falar do desconhecido, do velado, do mistério, ele não pode ser conhecido, revelado, ou manifestado. Óbvio? Nem tanto.

Toda e qualquer tentativa de dar nomes ou forma a algo, já o limita. Ou seja, desconhecido, por essência, não pode ser conhecido, do contrário, já não mais o seria. Mas ora, se a tudo damos nomes e tentamos compreender, como podemos alcançar o incompreensível? Simples, ele não se alcança. Continua achando óbvio, não? Pois é, mas o que mais vemos é que simplesmente esta condição de "inatingível" é simplesmente determinada, limitada, explicada, compreendida. E isto é na filosofia, na religião, na ciência, enfim. Queremos sempre que a nossa explicação do inexplicável seja melhor do que a outra... É a velha história do meu deus é melhor que o seu, ou, o meu big bang é melhor do que o seu criacionismo.

E se há um desconhecido que por mais conhecimento que o homem detenha não vai ele NUNCA atingir, é a questão do DESTINO. Não na concepção determinista do clichê "qual será meu destino?", ou coisas do tipo. O destino é o quê de mais pleno o ser "possui". O destino é a infinitude de possibilidades do ser a cada segundo em que se está sendo. Ou seja, é a manifestação da vida que se dá de uma forma a cada instante, e para cada uma destas formas, infinitas outras permaneceram veladas. Em um exemplo que peca por simplicidade, é como se daqui a 5 minutos você fosse pensar em sua amiga X, ao invés de pensar em sua amiga Y, ou no texto que você leu no Recanto semana passada. O destino se dá a cada segundo, momento, ou a cada qualquer unidade mínima de racionalização do tempo feita pelo homem.

Poderia vir um e outro e dizer "mas ora, eu pensei em X pelo motivo Y", e assim ir desenvolvendo todo um raciocínio de relações lógicas de causa e efeito. Ou seja, fiz isto por causa daquilo. E então eu pergunto, podemos determinar a causa de cada instante de nossa vida? Repare que estamos a falar de uma espiral que tende ao infinito. Isto me lembra uma tirinha do Super God... Se formos "voltando" na vida, nestas relações de X causa Y, chegaremos então ao seguinte ponto primeiro: o nascimento de cada um. E podemos ir mais além, se deixarmos de lado o eu. Se formos buscar a origem da mãe, da avó, da bisavó, até chegar a Adão e Eva, ainda assim poderíamos ir mais adiante... E onde chegaríamos ao final? Na questão que citei a algumas linhas atrás: qual a origem da vida / de onde viemos e para onde vamos. E adivinhem onde "está" a resposta desta pergunta? Na unidade da qual falava. É ela que, em nossa tentativa de compreensão, se comporta como a causa primeira. Mas ora, não resolvemos a questão. Apenas damos um nome a uma resposta que não conhecemos.

Continua na Parte II...

Liberdade Religiosa?

Escrito por Tadeo

Pode até parecer estranho que eu venha aqui defender um grupo religioso monoteísta como os muçulmanos (pelos quais eu já nutro uma certa antipatia), mas enquanto navegava pela internet acabei achando algo que só posso definir como um atentado à liberdade individual e religiosa.

O que aconteceu? Um parlamentar francês anunciou que iria apresentar um projeto de lei no qual proibiria o uso da burca na frança. A burca, para quem não sabe, é aquela vestimenta usada por mulheres de grupos mais radicais islâmicos, que cobre o corpo feminino da cabeça aos pés.

A algum tempo essa pressão religiosa na frança já me chama a atenção. O grande número de imigrantes do oriente médio na frança causa uma reação xenofóbica nos franceses. Até pouco tempo atrás o véu foi proibido de ser usado em locais públicos, como escolas e tribunais. Achei uma medida interessante e que deveria ser adotada em todos os lugares do mundo, pois não só o véu foi abolido e sim qualquer símbolo religioso, afirmando o caráter laico do estado. É claro que essa medida foi tomada exclusivamente contra o véu islâmico, mas nisso há ética e há lógica.

Os muçulmanos franceses até fizeram uma pequena revolução em novembro de 2005, não lembram dos carros queimados e tudo mais? Paris literalmente entrou em chamas, e os jovens religiosos provaram ao mundo que tinham poder e voz. Claro que não estou apoiando atos de vandalismo extremista, mas isso provou ao mundo que a questão islâmica na frança não podia ser ignorada. Acabou que os jovens rebeldes foram violentamente combatidos pelos policiais franceses e a situação voltou a sua normalidade.

Agora o alvo do governo é a burca. Nas palavras do próprio Sarkozy, presidente francês, "Não há espaço na frança para a burca". Qual a justificativa para tal opressão religiosa? Que a burca é um símbolo de subjulgação feminina e que na frança todos tem o direito igual, seja homem ou mulher. Mas até que ponto o estado tem o poder de subjulgar os direitos e escolhas religiosas do indivíduo?

A frança é um país que se diz livre. Possui um estado laico, preza pelos seus direitos civis e pela educação de suas crianças. Nossa, que legal heim? Se eu tenho todos esses fatores somados em um ambiente, o que eu posso presumir? Que a religião lá é uma questão de escolha. Não vai haver nenhum órgão público que persiga quem não faz parte da religião x ou y, o cidadão vai ter contato com outros individuos de outras religiões e, mais importante, não sofrerá nenhuma sanção por desobedecer qualquer dogma.

Então, se as mulheres francesas querem usar a burca, por que diabos os políticos franceses estão se preocupando com isso? Querem homogenizar uma nação? Da última vez que isso aconteceu na Europa, chamamos até hoje de Holocausto.

É claro que é uma questão mais delicada do que eu expus até agora. Primeiro que eu considero a burca um símbolo de opressão feminina, sim. E segundo porque os franceses não são mais maioria na frança. Não vou caprichar em eufemismos, a burca é a prova da idiotice islâmica de negar ao extremos os prazeres da carne, além de, em muitos casos, privar um ser humano de escolhas e dignidade. São por coisas como a burca que eu pessoalmente odeio todo o islã e sua intolerância extrema, que chega a até ser mais xenofóbica que a reação francesa.

Já a questão francesa é ainda mais delicada. Há o famoso termo Eurabia, que expressa ironicamente a influência dos imigrantes islâmicos por toda a europa. Imagine que seu país, com sua tradição liberal, esteja caminhando para um rumo fundamentalista pois uma nova religião estrangeira começou a se alastrar? É natural, e até compreensível esse sentimento francês, mas combater com esse tipo de opressão estúpida só reafirmar que os europeus ainda não aprenderam com seus erros do passado. Outras medidas poderiam ser tomadas, educação é sempre a chave. Mas não vou me ater a isso, pelo menos não hoje.

Tá, Tadeo, mas o que tudo isso tem com o Satanismo? Oras, muita coisa! Eu tenho o direito sagrado de escolher minha religião e praticá-la como eu bem entender sem que ninguém me atrapalhe, me xingue ou me prenda por isso. Isso não se aplica apenas ao Satanismo e as religiões em si, mas também a minha etnia, meus hobbies, minha opção sexual e tudo mais! Por que o estado pode dizer "essa prática religiosa é certa e essa é errada" se em ambas as práticas nenhuma lei foi quebrada? Primeiro a burca, depois o corão, depois ilegalizam o islâ, prendem os muçulmanos, aí depois vão para os homossexuais, os ciganos e os judeus... O resto da história vocês todos já conhecem.

Só quis expressar meu descontentamento com o rumo que as coisas tomaram. E vou ficar observando de longe até onde essa estupidez vai parar.

Infernus: 15ª Edição

Escrito por Recanto do Opositor

Acaba de ser disponibilizada para download a 15ª Edição da Infernus, que como todos sabem, é o órgão oficial de publicação da Associação Portuguesa de Satanismo. Nesta edição, o tema abordado é contra-cultura. Nela encontrarão ótimos textos, principalmente aqueles que se interessam por arte. Além de contarem com minha singela colaboração, representando mais uma vez nossa língua portuguesa do Brasil lá na terrinha. Sem mais, aproveitem a leitura:

Natal, Feliz Natal e Krampus

Escrito por Recanto do Opositor

O que dizer do Natal...? Mais do que já foi dito? Só vale a pena repetir os velhos clichês... Que é uma festa cristã, que bomba em todo o mundo apesar de nem todo o mundo ser cristão, que traz à tona valores como amizade, amor e alegria em um dia do ano enquanto em todos os outros nos comportamos muitas vezes filhadaputamente, que nos faz reunir a família com a qual passamos meses e meses sem falar por conta de alguma bobagem, que nada mais é senão mais um motivo para o capitalismo se esbaldar com seus números sempre crescentes de vendas, blá blá blá. Acho que todo mundo que já passou pela rebeldia adolescente (esta temporalidade é opcional) conhece muito bem tudo isto.

Assim como todo mundo consegue compreender que, apesar disto tudo, natal também é momento de encontro com parentes que a tempo não o vemos, a ocasião para reafirmar valores familiares, deliciar-se com os comes e bebes do antes/durante/depois da ceia, satisfazer-se dando e recebendo presentes, aproveitar o momento para dar um upgrade no negócio de vendas, aproveitar as promoções do comércio, e, em alguns casos, até mesmo celebrar o nascimento do nosso querido Jesus (escolha: com ironia/sem ironia).

Há sempre os dois lados da moeda...

Como eu não vou ficar destrinchando estes dois lados, tudo o que tenho a dizer é simplesmente: Feliz Natal. E que todos consigam escapar do Krampus na noite de natal... Ah, mas você não sabe que é o Krampus? Ora bolas, é assim que você comemora o Natal, com a crençazinha boba (ou a ausência de) no Papai Noel?

Pois bem, esta talvez seja a única coisa legal a ser dita por aqui no Recanto com relação ao Natal. Como leitores da Wikipédia que somos, sabemos (ou não) a relação que há entre a figura do Papai Noel e São Nicolau. O primeiro todos conhecemos, e quanto ao segundo, trata-se de uma figura presente na cultura de alguns países do sul da Europa, e que tinha por uma das características, de acordo com histórias e lendas, preocupar-se com as crianças e pessoas menos afortunadas, dando-lhes assim presentes, moedas, dentre outros. Este é o "verdadeiro" "bom velhinho". Inclusive, no dia 6 de dezembro alguns povos comemoram seu dia realizando trocas de presentes.

Mas ora, e o tal do Krampus. Pois bem, se São Nicolau ajudava as criancinhas boas mais carentes, o Krampus tinha por trabalho justamente castigar as crianças más. Sob a imagem de um demônio, incubus, ou algo do tipo, ele sai pela rua assustando a todos na véspera do dia de São Nicolau. Trata-se, em resumo, da contra-parte deste. E a graça de tudo é percebermos que ainda permanece vivo os pensamentos antigos que não se limitavam ao puro e simples "vamos dar presentes a todas as crianças", mas trazia à tona a questão moral, no sentido de que, "fez coisa errada, você será punido". Ou seja, a história não era só flores. E quer coisa mais satanista que isto?

Bem, tem uma enxurrada de informações a respeito do Krapus que, naturalmente, eu não vou ficar repetindo por aqui. Mas como é Natal, eis os links:

Sobre o Krampus
http://pt.wikipedia.org/wiki/Krampus
(pra quem tem preguiça de ler)
http://en.wikipedia.org/wiki/Krampus
(pra quem realmente deseja informações, basta saber inglês)
http://de.wikipedia.org/wiki/Krampus
(e o mais completo dos artigos, basta saber Alemão ^^)
http://www.krampus.com/index.php
(site oficial do mostro ^^)
http://www.apsatanismo.org/Infernus/pdf/Infernus_011_SOL2_VI.pdf
(edição da Infernus com artigo sobre o Krampus)

Sobre a relação entre Papai Noel e São Nicolau
http://en.wikipedia.org/wiki/Santa_Claus
(assim como com diversas outras figuras de diferentes culturas/folclore)

Sobre São Nicolau
http://pt.wikipedia.org/wiki/Nicolau_de_Mira
(pra quem tem preguiça de ler)
http://en.wikipedia.org/wiki/Saint_Nicholas
(pra quem realmente deseja informações)

E bem, Google nunca é demais. Com certeza há muito mais coisa sobre essas figuras espalhadas por aí na Internet, mas até que a Wikipédia contém bastante informação válida, e vale a pena ler, ainda que os melhores artigos não estejam em Portugês (novidade). Sem mais, só me resta dizer:

Feliz Natal a todos os leitores do Recanto do Opositor!

Ou não...!