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"Não subestime o desprezo absoluto das pessoas. Tornar-se um pária não é fácil. As pessoas acreditam que o diabo é Satan. Ignoram que o mundo é muito mais antigo que o cristianismo. Tudo para essas pessoas ignorantes é coisa do “diabo”. E julgam, recriminam e segregam. Ainda que isso seja um pecado diante de Deus. Porém, estranhamente é exatamente esse comportamento hipócrita e preconceituoso que a Igreja incentiva. É tudo tão absurdo. E afinal o que são os pecados? É uma maneira de controle do ser humano, de condená-lo, de inserir culpa pelos seus desejos naturais, de submetê-lo, de castrar seus pensamentos. É tudo tão ridículo."

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Fé Satanista: ritual, magia, crença

Escrito por Recanto do Opositor

O texto que segue é uma resposta enviada via e-mail a um colega que questionou o fato de eu utilizar o termo fé associando-o com o Satanismo, uma vez que outros Satanistas em suas opiniões publicadas, deixaram de lado este aspecto em nome da valorização de seu ceticismo. A questão já foi abordada em outros momentos, mas não custa nada "mastigar" um pouco mais.

Antes de entrarmos na questão de ter ou não o Satanismo fé, é preciso primeiro entender o que é a fé, e de que forma ela é compreendida. O senso comum nos coloca a fé contra a razão, caracterizando ela como uma crença que se estabelece por si só, sem a necessidade de uma comprovação empírica/racional/científica com relação a algum fenômeno. A fé se encerra em si mesma, e não depende de uma "constatação externa". Ela se manifesta no nível do indivíduo, é uma crença subjetiva. Em tempos modernos de valores cada vez mais científicos, é então posta abaixo esta idéia de uma crença que independe da ciência, retirando assim sua validade. E o que ocorre? Ninguém hoje em dia quer dizer que tem fé, a menos os religiosos convictos e crentes (quem crê, não apenas evangélicos) num geral. É feio, pega mal, e você ainda é tachado de cego. Enfim, todo satanista já passou pela fase de crítica a valores e idéias que dependem da fé e optaram por adotar o ceticismo. De tal forma, é comum esta negação presente nos discursos de muitos satanistas. Comum e plenamente justificada; a fé nos leva a acreditar em deuses, a se submeter a eles, a limitar-se em religiões, enfim. Todos sabemos os "problemas da fé". E todos falam disto. Eu não sigo por este caminho, não vou repetir o óbvio. Pelo contrário, minhas palavras têm por intuito justamente lembrar que o Satanismo também possui sua dose de fé. Basta lermos o primeiro parágrafo da BS logo no primeiro texto sobre a teoria da magia:

A definição de magia, tal como é usada neste livro, é: "A alteração de situações ou acontecimentos de acordo com a vontade do indivíduo, os quais, usando-se métodos normalmente aceitos, seriam inalteráveis". Isto admitidamente deixa muito espaço para a interpretação pessoal. (...) A magia nunca é totalmente explicável pela ciência, mas a ciência sempre foi, numa época ou noutra, considerada magia.
A Bíblia Satânica, versão Portuguesa, página 123

Ou seja, a partir do momento em que "aceitamos" a magia, estamos partindo de uma crença de que nossa vontade pode ser capaz de exercer algum tipo de influência tal que faça com que os eventos se modifiquem de modo a satisfazer nossos anseios. Você é capaz de estabelecer uma relação de causa e efeito a partir disto?

Se faz-se um ritual, no qual é mentalizado que você deseja muito uma pessoa, e por um total acaso do destino, você acaba por encontrar ela numa situação onde a interação fosse possível e mais do que isto, as circunstâncias todas operam a seu favor, como podemos dizer que estas "circunstâncias propícias" se realizaram no tempo graças a seu ritual e respectiva vontade? Como medir, calcular, determinar, prever, enfim, como entender isto aos olhos da ciência? É o mesmo que dizer que alguém foi curada de uma doença X por ação divina. Não podemos reduzir isto aos nossos valores empírico-científicos, e o mesmo ocorre na questão da magia Satanista.

Nem mesmo o próprio LaVey se aprofundou nesta relação de causa e efeito entre vontade e determinados eventos, uma vez que não há o que dizer nem o que provar ou argumentar; trata-se de uma crença. Entretanto, há dois pontos fundamentais em toda esta questão. O primeiro diz respeito aos propósitos do ritual. Basta lembramos-nos das palavras da BS:

A magia ritual consiste na realização de uma cerimônia formal, tendo lugar, pelo menos em parte, dentro dos limites de uma área escolhida para esse efeito e numa altura específica. A sua função principal é isolar a energia adrenal que, de outro modo, se dissiparia, e outra energia emocionalmente induzida e convertê-las numa força dinamicamente transmissível. É um ato puramente emocional e não intelectual.
A Bíblia Satânica, versão Portuguesa, página 124

Repare que neste trecho há uma tentativa de agrupar e especificar energias e de pressupor uma forma de atuação. O que de certa forma trata-se apenas de uma organização, uma vez que estas forças e tipos de energia não constituem qualquer teoria científica ou caracteriza-se como uma metodologia para a análise de um fenômeno. O que corrobora o que disse anteriormente. Mas o principal deste trecho é quando se descreve a função do ritual. Percebamos que a mudança dos eventos é a crença primeira da magia, mas a sua função primeira é a "liberação emocional", se podemos assim dizer. O que vem em primeiro plano é o indivíduo, seus sentimentos, tensões, vontades, fardos, dentre outros, e suas respectivas "descargas". Ou seja, por mais que partamos de uma fé, não se encontra ela acima do corpo, da carne, do sentimento, do que de fato compreendemos por real. Estamos a tratar de nós e do que ocorre com nós, estamos a falar sobre nosso viver, e não sobre um controle metafísico da realidade. E aí entra o segundo ponto. Todo valor e dogma satanista passa primeiro pelo filtro do eu, sendo sua aceitação uma questão de escolha, de opção. O mesmo é com esta nossa fé.

Ou seja, não estamos a lidar com uma fé cega, acima do indivíduo e de suas escolhas. É fato que não se trata de ciência, e qualquer nível mínimo de ceticismo pode anulá-la sem titubear, mas ora, se assim for, qual o problema? Serei menos Satanista por não crer que emoções, sentimentos, pensamentos e rituais possam implicar efeitos na ocorrência de eventos em minha vida? Ou ainda, serei menos cético por crer que isto é possível, sem que esta crença influencie negativamente minhas ações, condutas e pensamento; sem que isto me cegue ou me limite?

Assim sendo, nem 8 nem 80. O sistema religioso Satanista pressupõe sim uma crença não científica. Seria muito conveniente eu atacar a alheia sem deixar claro que também possuímos uma. Agora, quais conseqüências esta crença vai ter, só mesmo o indivíduo em sua prática (ou a ausência dela) para dizer...

A importância do símbolo

Escrito por Recanto do Opositor

Tal como os dogmas, sobre os quais já teci alguns comentários, há um outro aspecto do Satanismo que tende a causa muita discordância. Trata-se de seu constante uso de símbolos e imagens. Falar de tal assunto não é possível sem que se toque na questão do ritual, que é justamente o momento no qual as "figurinhas" serão colocadas em jogo. Para aqueles, que como eu, não vêem muita graça em coisas obscuras, rostinhos feios ou tudo que contenha certa dose de malvadeza, os símbolos acabam sendo vistos como algo desnecessário, meramente utilizados com propósitos de chamar a atenção, ou chocar de alguma forma.

Não bastasse toda a carga crítica e contra-cristã (eu não disse anti), nosso caro colega LaVey ainda acrescentou à Bíblia Satânica uma lista de demônios, e mais ainda, diversas as suas "invocações" ao longo dos rituais propostos. Estes queridos seres, com certeza são o maior alvo de críticas. Poderia se perguntar: ora, se somos a única divindade e questão e o culto é para si, pra quê demônios, pentagramas e coisas do tipo?

A primeira coisa a se pensar, quando se tem um questionamento como este é lembrar daquilo já sabemos, ou deveríamos saber, sobre rituais. Um conceito chave, mas que parece ser muitas vezes esquecidos, principalmente por parte dos mais leigos, ou dos malvadistas mesmo. O ritual é uma cerimônia de características individuais, e não gerais. Cada qual realiza seu ritual à sua maneira, o que é comum a todos é simplesmente a crença na magia, tal qual é descrita na BS. De resto, tudo não passa de proposições, sugestões. Ah, então se eu quiser plantar bananeiras pelado no quarto de minha avó, isto é um ritual? Se você conseguir liberar suas emoções assim, parabéns, foi muito mais original que muita gente por aí.

Até aí tudo bem, mas ora, o título deste post é "a importância do símbolo", onde está ela?!

Naturalmente, se a palavra principal do Satanista é liberdade, e esta manifesta-se na escolha da forma do ritual, ou em sua realização ou não, o contrário não seria no que diz respeito aos símbolos e as imagens. Antes de renegar o que é proposto pela BS, é preciso entender o motivo pelo qual temos nela demônios, pentagramas e outros símbolos.

É fácil de entender. Nomenclaturas semióticas/lingüísticas de lado, tem-se por símbolo uma determinada forma, seja ela verbal ou não, que nos remete a uma idéia. Trata-se de uma ligação que se faz entre uma imagem e um conceito, parte-se do maior para o menor. É uma forma de reconhecimento, assim como uma marca estética. Assim portanto, tem-se no símbolo uma carga intrínseca que é sentida e compreendida a partir de sua utilização.

Cada símbolo pode abrigar em si tanto um significado geral quanto um individual. No caso dos demônios, cada qual traz consigo histórias, mitos e lendas, de diversas culturas ao longo de séculos de existência humana. E cada qual possui sua carga significativa, não à toa a breve descrição que LaVey faz em sua lista. E é justamente para trazer à tona esta carga que se tem o uso do símbolo dentro do ritual. Isto parece bem simples de entender, mas ninguém pensa nisto antes de torcer o nariz ao ver tanto demônio pra lá e pra cá. E isto, pode se aplicar a qualquer outro símbolo e imagem, não à toa temos as 9 declarações Satânicas que tratam justamente de concretizar uma parte daquilo que Satan vem a representar.

Além disto, naturalmente podemos atribuir a uma determinada imagem, ou forma verbal, um significado estritamente pessoal. Tem-se total liberdade para tal, e isto é extremamente produtivo. Criar um símbolo próprio, digo por experiência própria, é muito melhor que "seguir" um outro.

Em suma, a importância do símbolo diz respeito à aproximação e à afinidade que se tem com uma determinada idéia, conceito, ou imagem, que de alguma forma desperte em você algum tipo de alteração emocional/psíquica num ritual, ou simplesmente sirva como um elemento estético que lhe agrade possuir junto a si. Não gostou dos que LaVey sugeriu? Ora, escolha outros então!

Infernus: 13ª Edição

Escrito por Recanto do Opositor

Acabou de ser disponibilizada no site da Associação Portuguesa de Satanismo a 13ª Edição da Infernus. Para quem não sabe do que se trata, ela é o "Órgão Oficial de Expressão da Associação Portuguesa de Satanismo", segundo os próprios. Mais que um título bonito, ela é a concretização do pensamento refletido em produção e publicação sobre o Satanismo. E eu realmente não me canso de tecer bons comentários, como já disse aqui mesmo no blog, trata-se de uma qualidade tal que não possuímos cá no Brasil. Segue link, e aproveitem:


Para quem quiser saber mais sobre a parte ritualística do Satanismo, leitura obrigatória. Este é o tema deste número... Enfim, leiam.

A necessidade de crer no que não se vê...

Escrito por Recanto do Opositor

Aqui no blog já falei, recentemente até, sobre a curiosa mudança de forma que certos conteúdos vêm sofrendo. Para quem não leu, a história é mais ou menos a seguinte, enquanto muitos oram a um senhor barbudo achando que ele vai resolver todos os seus problemas, outros fazem exatamente o mesmo, mudando apenas o tal senhor para um demônio de chifres, ou qualquer coisa do tipo. Isto vem ocorrendo muito e hoje em dia não faltam entidades para nos apoiarmos. Satan, Lúcifer, deuses negros, e outras cositas más.

Mas hoje eu não venho falar de entidades, personagens, deuses negros, claros, luminosos ou fluorescentes. Tenho percebido que uma outra palavrinha mágica é tão pop star quanto algumas entidades dumal. Esta palavra se chama "magia". Mas ora, não há magia no Satanismo? De fato há, mas tudo tem limite...

Primeiramente acho que não preciso ficar explicando o que é magia e quais são os dois tipos propostos por LaVey. Quem ainda não entende, material aqui no blog não falta. Quem já sabe me compreenderá...

O que quero falar é que, da mesma forma como a necessidade da crença teísta só muda com relação à divindade alvo, a necessidade de buscar abrigo em coisas externas ao indivíduo também só muda de nome.

Que quero dizer com buscar abrigo? Simples. O que acontece é que, na falta de uma visão voltada para si mesmo como o centro das ações, como fim e meio supremos; da compreensão de sua importância para si como a fonte primária de força individual; alguns jogam para coisas "que não vêem" a responsabilidade de seu sucesso e/ou fracasso, bem como fonte de conhecimento, poder ou algo do tipo. E como isto se dá? Vamos lá...

Há uma necessidade, tipicamente humana, de explicar o inexplicável, de descrever o que não se vê... Isto dá obviamente livros e livros de conversa, justamente por ser esta condição o grande motor da vida... Mas o que nos importa agora é compreender como isto se dá e o quão diferente do pensamento Satanista isto é... Bem como tal pode deixar de lado as melhores idéias da religião.

Para vermos de perto esta necessidade, não precisa ir muito adiante. Hoje disponíveis na internet o que mais temos são manuais de magia, de rituais, descrição de sistemas complexos de divindades, enfim... Grande parte das religiões do dito Caminho da Mão Esquerda baseiam-se fundamentalmente em entidades, e alguma forma de magia mais ritualística. E tudo isto nada mais é senão mais uma forma de crença. Nada mais que isto. Diversos textos são produzidos descrevendo sistemas de idéias pautados todo em proposições de rituais e descrições de deuses e/ou rituais. Ou seja, crença, crença e mais crença, ou simplesmente como gostam de chamar, magia. Claro, não se trata apenas destas descrições mais "complexas" de magia, rituais, poderes ocultos, e coisas do tipo. Há ainda coisas ridículas como pactos, consultas a entidades e coisas do tipo...

Obviamente, eu não estou aqui dizendo se estas formas de crença são válidas ou não. Não se trata disto. Se é algo que não pode ser explicado, não há respostas absolutas. É como querer provar a existência ou a inexistência de deus. Não dá em nada. O que se deve compreender é a importância que o indivíduo Satanista possui, importância esta que influenciará até mesmo o conceito da própria magia Satanista.

Reparem que LaVey em sua Bíblia Satânica não dedica qualquer espaço a nenhuma entidade quando está a falar de magia. Claro, esta própria negação do "teísmo externo" permeia todo o texto, mas quando falamos neste ponto específico fica claro que a nossa crença não está associada a nenhum personagem inventado por nossa mente. Além disto, temos uma caracterização de magia, a manipulativa, que nem ao menos de crença necessita. Mas ora, não deixa então de ser magia? Bem, a despeito de haver apenas uma definição no dicionário, esta palavra possui as mais diversas cargas semânticas, no mais diversos contextos, religiosos ou não. LaVey simplesmente foi um pouco além do que já havia sido pensado e nomeou de magia também ações concretas.

Outro ponto fundamental é compreender que a religião Satanista propõe muito mais um "agir" que um "crer". Grande parte dos conceitos Satanista diz respeito à parte fundamental deste sistema religioso, que é o que gosto de chamar de proposição de conduta. Ou seja, é um caminho do fazer, do portar-se, do pensar, do viver. Esta é a parte dogmática do Satanismo e nela é que estão os grandes valores da religião, que simplesmente a torna única.

Mas por conta desta "mística persuasiva" parece que as coisas "que não vemos" nos desperta mais interesse. Claro. Não só desperta mais interesse, como também é uma forma de pensar muito mais cômoda. Recorrer a um mundo "mágico" é muito mais simples que bater de frente com o mundo "real". Isto justifica a grande "procura" pelo Satanismo, por parte dos leigos, na esperança de que Satan, o de chifres, possa trazer algo de bom para suas vidas...

É claro que, quem quiser seguir deuses e magias e rituais e hierarquia de demônios, entidades ou coisas parecidas, fique à vontade. Não se trata de dizer o que se deve ou não fazer. Mas eu estou vivo, penso, e ajo, não vou deixar de lado meu agir humano esperando intervenções mágicas...

Magia Manipulativa: agora não precisamos de fé...

Escrito por Recanto do Opositor

Em um post anterior, comentei sobre a questão do Ritual Satanista. Coloquei que ele partia de dois pontos principais. Primeiro, a necessidade de o indivíduo exteriorizar seus sentimentos/aflições/dores/anseios/etc. que de alguma forma estivessem a provocar algum tipo de mal estar intenso; e de forma secundária, temos a noção da fé na magia, que por sua vez é compreendida como uma mudança de eventos de acordo com a própria vontade, sendo estas energias/forças/poderes/etc. exteriorizados no ritual, os elementos que provocariam tais mudanças. Lembrando mais uma vez que esta fé é opcional, e tem por fim primeiro o ritual o aliviamento daquilo que de alguma forma consome o indivíduo.

Entretanto, o conceito de magia para o Satanista, como cheguei a comentar ao final do texto sobre ritual, não se limita à cerimonial. LaVey a divide em dois tipos, cerimonial e manipulativa. Da primeira já falei, e o tema de agora é justamente esta última, também nomeada de magia inferior (Lesser Magic).

A Bíblia Satânica trata de nos explicar que a magia manipulativa é aquela a partir da qual provocamos mudanças de eventos (definição primeira comum aos dois tipos de magia) a partir de ações mais "práticas". Isto significa que não recorremos à fé, ou ainda numa exteriorização de energias. Simplesmente agimos de tal forma que as coisas ocorram de acordo com os nossos desejos e anseios. LaVey nos diz que esta prática era antigamente reconhecida como glamour e fascinação e a partir disto ele comenta sobre o poder que as bruxas exerciam com sua capacidade de dominar os homens através de olhares, toques, sexo, enfim. O que temos na Bíblia é uma valorização destes elementos, funcionando estes como uma "ferramenta" nas ações que caracterizam o uso da magia manipulativa.

Particularmente sinto falta de uma exploração maior deste conceito tão fundamental. Talvez LaVey não quisesse ir além, não viu necessidade, enfim. Mas acredito que podemos pensar um pouco mais sobre a questão... Primeiramente, é preciso ampliar o que é dito na Bíblia. Segue transcrita a definição da magia manipulativa:

"Não ritual ou magia manipulativa, algumas vezes chamada de "Magia Inferior", consiste no ardil e fraude obtida através de vários artifícios e situações elaboradas, que quando utilizadas, podem criar mudança, de acordo com o desejo de alguém. "
The Satanic Bible, página 60, Anton Szandor LaVey, tradução própria

Voltemos a atenção a estas duas palavras, “ardil” e “fraude”. Pensemos apenas na primeira por enquanto. “Ardil”, se procurarmos em qualquer dicionário de nossa língua, terá como significado termos sinônimos como astúcia, manha, artifício, estratagema, e outros de mesmo campo semântico. E é justamente a partir destas palavras que podemos pensar um primeiro ponto.

Ora, o Satanismo parte de um princípio fundamental que rege todos os seus conceitos, que é a busca pela satisfação do indivíduo. Então, a partir do momento em que esta passa a ser a meta das ações satanistas (e humanas, como um todo), podemos encarar que toda ação por si só é uma ação de magia manipulativa. Isto, pois uma vez que estamos inseridos em uma sociedade e somos dotados de pensamento, todos os nossos atos inexoravelmente exercem influencia em nosso meio. Estamos vivos e interagindo a todo o tempo, provocando mudanças a cada segundo. O que difere um simples agir, de um agir mágico manipulativo?

Talvez a questão seja respondida na própria Bíblia, quando LaVey exemplifica este agir com o glamour. Mas ora, glamour não seria apenas uma forma de promover uma mudança de acordo com a nossa vontade? O indivíduo não possui um leque enorme de ações e pensamentos para criar situações concretas de acordo com seus desejos? Sigo perguntando, não seria toda ação necessariamente mágica manipulativa? Ou este tipo de magia refere-se apenas a glamour, sedução e fascinação?

Desta vez, para tentar respondermos a estas perguntas, podemos partir dos sinônimos “estratagemas” e “astúcia”. Assim, pode-se dizer que o que de fato difere uma simples ação de uma ação manipulativa, se podemos assim nomear, é o empenho que é exercido de acordo com o desejo. Ainda teríamos aqui a satisfação como meta, entretanto, o que varia é a intensidade do empenho que é desprendido para que o desejo seja realizado. Tem-se isto, pois tanto o agir de forma astuta, quanto o agir a partir de um estratagema pressupõem certo esforço de pensamento, certo esforço de ação. É interessante que esta noção de intensidade paralelamente se manifesta quando pensamos na magia cerimonial, pois sua ocorrência justifica-se justamente por uma “quantidade” considerável de sentimento/força/emoção/fardo/etc., assim como um labor mais enérgico se apresenta na magia manipulativa quando temos algo maior a ser alcançado.

O segundo ponto coloca-se por sua vez a partir de uma crítica que se pode fazer com relação à noção de magia em questão. A algumas linhas atrás, destaquei duas palavras, “ardil” e “fraude”. Tratei do ardil até então como "estratagema" e "astúcia". Entretanto, há outra palavra que consta em dicionários e que nos remete a noções que não estão presentes nestas duas últimas. Estou a falar de "armadilha". Se pensarmos tanto em "fraude", quanto nesta, veremos que há certa carga de algo mais "sujo", mais "enganoso", no sentido, indo um pouco mais além, de aproveitar-se de outrem. Isto se torna mais palpável, se pensarmos em uma situação mais concreta, na qual o indivíduo, em sua fraude e armadilhas, acabe, em função de uma satisfação própria, pro prejudicar alguém. E esta é uma questão que se coloca não somente se pensarmos no assunto em questão, mas no próprio Satanismo de uma forma geral. Digo isto, pois uma das grandes críticas feitas ao nosso modo de pensar é justamente aquela que parte da interpretação errônea de que passamos por cima de tudo e de todos para conseguirmos o que desejamos, e bem, seria então, por conta deste erro de compreensão, a magia manipulativa um respaldo conceitual que viria a validar esta crítica.

A partir de tal, tem-se a resposta no próprio Satanismo. Acima da busca da satisfação individual está a noção da reciprocidade. Negá-la para simplesmente validar o esforço para se conseguir o que se deseja, é simplesmente fornecer bases para o caos. Ou seja, se eu quero algo, e não me importa a vida alheia, matarei, roubarei, trarei dor a quem nada me fez. Assim seria muito fácil. Mas não é isto que o Satanismo prega. Da mesma forma que não viramos a outra face, também não damos um tapa na cara de ninguém de forma gratuita!

Em suma, para encerrar o post, mais longo que de costume, entendamos a magia manipulativa como a ação prática que produzimos, sendo esta caracterizada por certo labor e empenho considerável, com a qual visamos obter aquilo que, de forma intensa, e não simplesmente comum, desejamos. Sem deixar de lado o fato de que não estamos sozinhos no mundo, e que o nosso agir que tem por meta a satisfação individual não tem de causar qualquer revés alheio a troco de nada.

Ritual Satanista

Escrito por Recanto do Opositor

Nada chama mais atenção no teatrinho "Satanista" que seus "rituais". Para um leigo, pensar em Satanismo é diretamente pensar nos pentagramas desenhados no chão, nas virgens mortas, nos bebês afogados, nos cultos a deuses negros (rsrs), enfim. Toda aquela palhaçada cinematográfica...

Mas bem, Satanismo é uma religião, e não poderia deixar de ter seus ritos e práticas próprias. Antes de falar um pouco sobre o que de fato viria a ser o ritual Satanista, é preciso desfazer a idéia do "ritual", típica do senso comum, ou do pensamento leigo no que diz respeito às religiões.

Um ritual, ou um rito, dentro de uma perspectiva religiosa constitui uma prática, por vezes com periodicidade determinada, que possui algum tipo de simbolismo forte para a religião, que indica determinado preceito ou crença, que possui algum tipo de valor dentro do sistema religioso no que diz respeito a seus conceitos e idéias. São ações determinadas, cuja forma e princípios dos quais partem são prescritas por estes conceitos.

O que isto tudo quer dizer? Simples, quer dizer que todas as religiões possuem seus rituais e isto não é uma especificidade do Satanismo. Digo isto, pois é como falei ao início do post, o termo "ritual satanista" parece ter um peso maior, do que por exemplo, "ritual cristão". Mas ok, se isto é tão normal assim nas religiões, como então é o ritual Satanista?

De início, é preciso compreender o porquê, não o como. O ritual cerimonial Satanista tem como intuito, em primeiro lugar, livrar o indivíduo de possíveis sentimentos, aflições, mágoas, fardos, enfim, qualquer sensação que promova certo excesso doloroso. É através do ritual cerimonial, num contato consigo próprio que o indivíduo, através de pensamentos, sensações, interações com objetos, ou com o meio onde se encontra, ou ainda com outros elementos, mentalmente "expele" aquilo que o consome. É um tanto quanto complicado descrever tal processo, pois não há palavras que definem o que constitui o pensamento de um praticante de ritual no momento em que este se dá. É um diálogo consigo mesmo. Um diálogo com os múltiplos eus do Satanista, uma doce conversa com as mais diversas faces de nossa consciência. É um trabalho feito com o pensamento e com os sentidos.

Além desse "colocar para fora", entra em jogo também a crença na magia. Para o Satanista, a magia define-se como a mudança de eventos que ocorre de acordo com vontades individuais. E como se dá isto? Simples, tudo aquilo que é "posto para fora" funciona como uma energia que influencia nosso meio a ponto de provocar a tal mudança. Obviamente, isto é uma crença e coloca-se em segundo plano no ritual, uma vez que, é muito mais palpável um alívio de fardo que uma "mudança no rumo natural das coisas". Convém dizer também que esta é uma crença que fica submetida à escolha do indivíduo, cabe a ele aceitá-la ou não. É uma questão pessoal de definir até onde vai o ceticismo...

Já que falei sobre o porquê, vale falar também um pouco sobre o como. Neste ponto, dois caminhos se abrem. Seguir rituais propostos, ou o próprio indivíduo produzir o seu. LaVey trata na Bíblia Satânica de propor alguns elementos, objetos e palavras que ajudem o indivíduo a praticar sua crença e produzir seu ritual. Tudo isto é passível de escolha. Um Satanista pode perfeitamente contentar-se com uma oração de versos próprios, com uma meditação ao ar livre, enfim. Cada um trabalha com a magia da forma que bem entender, valendo-se de recursos mais estéticos e materiais ou não.

Ou seja, o ritual satanista é algo mais normal do que se pensa. Considero como uma válvula de escape, sadia e necessária para todo e qualquer tipo de problema que o indivíduo venha a adquirir em sua jornada de vida. Não é uma crença cega em entidades exteriores na qual nos colocamos como simples recitadores de cânticos preguiçosos onde nos ajoelhamos e esperamos atuação divina. É trabalhar a própria mente, renová-la, mantê-la num estado satisfatório para que encaremos nossos infortúnios de forma mais centrada, mais calma, mais produtiva.

OBS: A noção de magia Satanista é conceituada em duas categorias, a cerimonial e a manipulativa. Foi sobre a primeira que tratei de falar neste post, sendo a segunda, de forma bem resumida, a magia na qual agimos de forma prática nas situações, ao invés de recorrermos a nós mesmos. Diz respeito a um fazer mais concreto, mais diretamente inserido em situações exteriores. Para informações mais precisas, recomendo o meu "Magia e Ritual Satanista", bem como, claro, a Bíblia Satânica.